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Redefinindo a vulnerabilidade em uma favela de Beirute: quando a cidadania desempodera (Agosto 2018)

Redefining vulnerability in a Beirut suburb: when citizenship disempowers

Biografia: Estella Carpi è doutora em Antropologia Social e Pesquisadora na University College London. Desde 2010, ela vem realizando pesquisas sobre a resposta social à assistência humanitária fornecida no Líbano desde a guerra de 2006 contra Israel até afluxo de refugiados vindos da Síria. Após estudar Árabe em Milão e Damasco (2002-2008), Carpi recebeu seu mestrado pela Universidade de Milão. Sua tese focou em antropologia linguística no Líbano (2008). Ela trabalhou como consultora de pesquisa para o Centro de Pesquisa de Desenvolvimento Internacional (2009-2010), com sede no Cairo, focando em sistemas de proteção social para categorias vulneráveis no Egito, Líbano, Iêmem, Marrocos e Argélia. Também trabalhou para a o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas no Egito (UNDP-Egypt) no Programa de Comércio e Desenvolvimento Árabe (2008), UN-Habitat no Líbano (2016), Trends Research and Advisory e a New York University em Abu Dhabi (2015 e 2016).

Palavras-chave: pobreza urbana – Líbano – política da identidade

Keywords: urban poverty – Lebanon –identity politics

Resumo

Refugiados no Líbano sempre ocuparam o nível mais baixo da pirâmide social libanesa, na maioria das vezes não têm acesso a serviços públicos e não são nem mesmo legalmente reconhecidos como refugiados. Por sua perspectiva, a cidadania, mesmo produzida dentro de um sistema estatal instável e corrupto, parece ser a única ferramenta para garantir serviços básicos. O presente artigo mostra como em alguns casos como o de Hay al-Gharbe, subúrbio de Beirute—habitado por refugiados, trabalhadores migrantes, e um pequeno número de libaneses desfavorecidos—a cidadania, mais do que a condição de refugiado, é o status legal que impede que os vulneráveis tenham acesso ao regime de assistência no Líbano. Neste âmbito, enquanto a pobreza de refugiados e trabalhadores migrantes se tornou o único fator interpretativo externo para explorar a vulnerabilidade no Líbano, um tipo de pobreza urbana, que não está nem conectada à violência política das guerras regionais nem ao regime falho de refugiados, será investigada por meio de métodos etnográficos.

Abstract

Refugees in Lebanon have always occupied the lowest level of the Lebanese social pyramid, often denied access to public services, and not even being legally recognized as refugees. From the refugee perspective, citizenship, however produced within a wavering and corrupted state system, seems to be the only tool guaranteeing basic services.

The present paper shows how, in particular cases like the Beirut suburb of Hay al-Gharbe—inhabited by refugees, migrant workers, and a small number of disadvantaged Lebanese—citizenship rather than refugeehood is the legal status preventing the vulnerable from accessing any assistance regime in Lebanon. In this framework, while refugee and migrant workers’ poverties have by now become the predominant external interpretative lens to explore vulnerability in Lebanon, a kind of urban poverty, which is neither connected to the political violence of regional wars nor to the flawed refugee regime, will be investigated through ethnographic methods.

Introdução

Os subúrbios do sul de Beirute, considerados par excellence a “periferia” do Líbano, ganharam o nome de “Dahiye” em 1982 após serem chamados de “cinturão da miséria”—hizam al bu’s— ao lado do sul de Metn. A região de Dahiye está localizada entre a área agroindustrial do distrito de Choueifat e o município de Hadath (Harb, 2006). Atualmente, os subúrbios ao sul da capital libanesa são, em sua maioria, administrados pelo principal partido xiita Hezbollah, que prevaleceu sob o partido xiita Harakat Amal na década de 1990.

A homogeneização de um Dahiye desolado e miserável tem muitas vezes ofuscado as diferentes causas da pobreza crônica local e das emergentes formas de exclusão, não somente desencadeadas por fluxos migratórios, crises de refugiados, ou estruturas econômicas abstradas, mas por questões políticas que ainda hoje são ignoradas tanto no nível nacional quanto no internacional. A reconstrução do Dahiye de Beirute em 2006 foi monopolizada pelo projeto Waad, desenvolvido pela ONG Jihad al-Binaa, financiada pelo Irã, e o mais bem sucedido projeto de reconstrução das áreas diretamente afetadas pela guerra de julho de 2006, que são indistintamente vistas como marcadas politicamente pelo governança do Hezbollah. Os esforços para a reconstrução não consideraram as áreas do Dahiye que sofrem de vulnerabilidade perene (Dercon, 2006) e que no geral constituem espaços politicamente “anônimos” ou não afiliados.

Estes bairros do Dahiye, como o assentamento ilegal Hay al-Gharbe — objeto de análise da minha pesquisa de campo entre 2011 e 2013 — na verdade não foi alvo de ataques militares e, portanto, nunca foi declarado em “estado de emergência”.

Eu irei, portanto, ilustrar como o meio social do Hay al-Gharbe é discutido por seus habitantes, que são afetados pela vulnerabilidade não relacionada à guerra. Este artigo também mostra como a falta de bem-estar local afeta indivíduos em áreas negligenciadas tanto por agentes estatais quanto não estatais quando a política de emergência governa os espaços sociais. Neste contexto, o comportamento humano não está moldado pelo caráter estrutural da pobreza urbana, mas pelas percepções culturais do sujeito (Benedict, 1934), que também implica em diferentes imaginários e equemas sociais de pobreza dentro do cenário libanês (Lewis, 1959: 3). A gama de normas e valores que fundamentam tais esquemas emergem da adaptabilidade humana à experiência da pobreza. O estudo de Hay al-Gharbe contrasta com a única possibilidade de prática da cidadania na área de Dahiye, que consiste em afiliação política, conformidade local e não contestação das éticas sociais dominantes.

Este artigo, portanto, aponta para as formas em que a cidadania é mediada por experiências vivas e por direitos formais, a fim de ilustrar as formas articuladas e complexas de pertencer a políticas ignoradas (Isin, 2008).

Métodos de Pesquisa

No âmbito da minha pesquisa de doutorado, realizei aproximadamente 90 entrevistas em profundidade entre setembro de 2011 e novembro de 2013 com moradores do Dahiye, beneficiários ou não da ajuda humanitária fornecida  durante e após a guerra entre Líbano e Israel em julho de 2006 — harb tammuz —, que causou um nível sem precedentes de destruição na infraestrutura do Líbano. Também conduzi 68 entrevistas semi-estruturada em diferentes subúrbios de Beirute com organizações não governamentais locais e internacionais, agências da ONU, e municípios locais que forneceram ajuda humanitária aos desabrigados em 2006.

Andei informalmente pela área de Hay al-Gharbe por vários meses após iniciar minha pesquisa de campo de doutorado. Apesar de fazer parte da área do Dahiye, a maioria de meus amigos libaneses e interlocutores nunca tinham ouvido falar desta favela localizada a oeste de Shatila. Desde então, Hay al-Gharbe tornou-se o papel decisivo de minha pesquisa sobre programas humanitários nas áreas de guerra da Grande Beirute.

Em relação à interpretação de dados e análise dos resultados, privilegiei uma abordagem etnográfica qualitativa a fim de sentir as respostas fornecidas por meus interlocutores ao invés de somente coletar e divulgar suas palavras. Portanto, a observação participativa cotidiana — uma ferramenta clássica de pesquisa em antropologia — permitiu uma compreensão mais aprofundada das situações diárias mencionadas no presente artigo e é aqui considerada como principal fonte epistemológica.

Como ficará evidente, uma análise qualitativa mais ampla de como espaços sociais se transformam em cenários humanitários permitiu que eu explorasse as zonas cinzentas da vulnerabilidade, encontradas entre a condição de refugiado e a cidadania, e portando revelasse as desigualdades pouco estudadas do Dahiye.

Hay al-Gharbe: Não Afiliação Política e Marginalização Crônica

Hay al-Gharbe é um assentamento ilegal que fica na fronteira entre o campo palestino de Shatila e o antigo campo de Sabra — agora simplesmente chamado de tajammu‘, “assentamento” — sob o município de al-Ghobeiry, cuja administração pertence ao principal partido xiita libanês Hezbollah. Sabra e Shatila ficaram famosos por causa dos massacres praticados pela aliança Falangista-Israelense em setembro de 1982 durante a Guerra Civil Libanesa (1975-1990).

As fronteiras deste assentamento não são meramente físicas; elas estão conectadas às identidades comunitárias. Na realidade, sua configuração mudou durante a Guerra Civil Libanesa por conta da migração dos habitantes ao atual estádio, Camille Chamoun (al-medina ar-riadiyya), como resultado dos frenquentes bombardeios aos campos palestinos na época e à briga entre diferentes facções políticas.

Para reformar o estádio em 1992, os ocupantes, antigos habitantes de Hay al-Gharbe, foram despejados e retornaram ao assentamento. O assentamento sempre se diferenciou do campo de Shatila por sua composição urbana variada. Além disso, os próprios moradores muitas vezes expressavam rejeição ao serem associados ao campo de refugiados palestinos, pois este último era frequentemente alvo de ataques de diversas forças políticas e, portanto, atraía a atenção da política internacional.

Em particular, os residentes libaneses que temiam um conflito de longa duração em 2006 ou um aumento da violência nos confrontos Xiita-Sunita em 2008 se mudaram da área, mas retornaram mais tarde, incapazes de se estabelecerem em outros lugares da capital libanesa (Das e Davidson, 2011).

A maioria dos moradores de Hay al-Gharbe são Dom (72%), descendentes de nômades que povoaram as terras da Índia entre os séculos três e dez e que agora habitam o Oriente Médio. O assentamento também é habitado por palestinos que não encontraram acomodação nos campos de refugiados; refugiados regionais e trabalhadores que migraram da Asia e África (especialmente iraquianos, cingaleses e sírios) também representam um número considerável dos residentes de Hay al-Gharbe e formam uma esfera marginalizada dentro da realidade multifacetada do Dahiye. Logo, cidadãos libaneses representam apenas uma pequena porção da população suburbana.

Deve ser levado em consideração que a região do Dahiye, onde Hay al-Gharbe está localizado, pode acomodar até 80 mil pessoas. No entanto, em 1995 já abrigava 500 mil residentes (Harb, 2006).  Os grupos sociais que moram em Hay al-Gharbe — 10 mil pessoas no total — tendem a se isolar e evitar interação uns com os outros e com os demais residentes do Dahiye.[1] Além disso, a maioria dos habitantes são mulheres e crianças, uma vez que cerca de 20% dos homens estão presos. O aumento nas taxas de criminalidade pode ser atribuido à pobreza prolongada e ao aumento da violência urbana (Das e Davidson, 2011).

Por conta de procedências nacionais e hábitos culturais diferentes e ao vertiginoso ritmo de urbanização, a demografia citada nunca foi assimilada à malha urbana do Dahiye, impedindo a formação de uma comunidade urbana totalmente integrada. A falta de integração como resultado de um aumento da urbanização é um fenômeno sociológico generalizável no Líbano (Khalaf, 2006).

Em geral, o rápido processo de urbanização pelo qual imigrantes rurais passaram abriu caminho para a formação de assentamentos ilegais, cujo desmantelamento permanece sendo difícil em um país onde as instituições são muito relaxadas e corruptas para impor regras.  O governo libanês, pelo seu lado, não tem interesse em investir no desenvolvimento de infraestrutura de áreas que proliferaram ilegalmente.

Como prova de tal sentimento de isolamento social, Fatma,[2] 14 anos, me mostrou seus sapatos desemparelhados e disse:

“Eu nunca saio de casa, acho humilhante… olhe para meus sapatos, eles são diferentes um do outro e não tenho dinheiro para comprar outros. Não tenho amigos; se você sai com eles, a conversa é sobre o que eles tem. E não tenho nada para contar… Tudo bem, eu me acostumei com isso. Se eu não tivesse me acostumado, eu iria sofrer.”[3]

Najwan é uma mulher palestina que possui cidadania libanesa por conta de seu casamento com um libanês.[4] Ela me contou que sempre morou em Hay al-Gharbe porque sua família não tinha nenhum contato político e, portanto, não teve a oportunidade de estudar ou encontrar um emprego.[5]

“Eu gostaria de colocar minhas crianças na escolha, mas é um maldito círculo vicioso: com que dinheiro ou poderia fazer isso? Elas morrerão da mesma forma que eu: sem ninguém para tomar conta delas.”

Vale ressaltar que a única ajuda acessível à família da Najwan é aquela a que palestinos têm direito. Isso permitiu que Mohammed, um dos meus interlocutores libaneses, se identificasse com os palestinos refugiados, uma vez que sentiu-se traído pelos libaneses após ser demitido do mercado de vegetais de Sabra onde costumava trabalhar há seis meses:

“Os sírios roubaram meu emprego e meu chefe libanês simplesmente quis contratar alguém mais explorável do que eu. Eu transferi minha cidadania libanesa para toda minha família, mas isso não mudou muito para nós. Nós não “recebemos” nenhum míssil israelense em casa. E com a administração do Hezbollah é assim que funciona: se não houver nenhum dano físico causado por Israel, você não receberá ajuda. Você precisa saber que novas famílias que possuem cidadania em Hay al-Gharbe prometeram lealdade à partidos políticos locais, votando neles nas eleições. Os candidatos prometem fornecer geradores mais acessíveis, administrar melhor os lixões e dar água de qualidade. O que nós faríamos por água de qualidade! Para não pagar para beber água, alguns residentes literalmente se escravizam aos partidos… Você viu o hijab da minha filha? Ela não o usa porque realmente quer ou porque queremos isso… ela o usa porque começou a perder cabelo devido a água salgada do chuveiro!”

Najwan e sua família — meio palestina, meio libanesa — não incorporou a precariedade resultante das emergências de guerra, mas sim a vulnerabilidade decorrente da assistência humanitária de longo prazo dada a palestinos. Ao mesmo tempo, a família de Najwan está associada à pobreza crônica causada e agravada pelos deslocamentos esporádicos durante a guerra civil e por políticas de governo (e de ONGs) discriminatórias.

Wafiq,[6] um libanês de 40 anos que mora em Hay al-Gharbe, disse ser grato por ter tido uma mãe palestina, já que isso assegurrou a sua família acesso às remessas enviadas às comunidades migrantes palestinas:

“Graças ao Beit Atfal as-Sumud (‘Casa [Palestina] de Apoio à Criança’), nós recebemos sustento, o que, no entanto, é suficiente apenas para sobreviver. O povo libanês, como meu pai, nunca teve wasta (contatos pessoais válidos) então nunca tivemos acesso aos serviços públicos, que são muito caros para nós…Você acredita em mim? Para que serve então a nacionalidade libanesa! Aqui não temos água para beber, nem eletricidade; existe apenas uma escola e um posto de saúde no distrito graças à algumas associações. No entanto, o exército nacional não nos protege, nem a polícia e nem o Estado… ninguém liga.”

Da mesma forma, Fathi,[7] um libanês de idade mais avançada que costumava levar uma vida reclusa em Hay al-Gharbe por causa de sua pobreza extrema afirma:

“Eu lutei ao lado do Fatah ad-Dahiye na “guerra dos campos” em 1987. Naquela época, eles faziam muitas promessas: ‘Se você lutar, receberá tudo o que você e sua família precisar’. Não vi nenhuma melhora, nenhuma ajuda. Estou cansado de ver mentiras, assim como revoluções e resistências. Minha vida é tão ruim hoje como nos anos da Guerra Civil.”

Amira,[8] uma adolescente de 13 anos disse que após 2008 ela voltou a viver em Hay al-Gharbe com seus pais, mas

“Nada pertence a nós aqui. A terra pertence ao município e eles podem expulsar-nos daqui quando quiserem. Por isso vivemos trancados em casa. A não ser que mostremos a cara, a maioria de nós permanece invisível e esquecido. E quanto mais esquecidos somos, melhor. Não há segurança. Já esqueci o que há lá fora e eu resisto graças a isso.”

A invisibilidade do Hay al-Gharbe, mesmo dentro dos limites do Dahiye, é devido à negligência de longa data do Estado e da falta de interesse das organizações humanitárias internacionais, que tendem a intervir em áreas que estão menos envolvidas na política global.

De fato, estruturas não governamentais — que desempenharam um papel intervencionista importante no Dahiye durante a guerra de julho de 2006 — negligenciaram áreas de vulnerabilidade severa crônica e pobreza urbana, mas não derivadas da guerra e da violência (Karam, 2006).

Após a vitória pírrica do Hezbollah na guerra de julho de 2006, o partido alcançou o auge de sua popularidade ao distribuir recursos sem discriminação sectária; os distritos mais bombardeados do Dahiye, portanto, atingiram níveis sem precedentes de desenvolvimento econômico e de gentrificação (i.e. Haret Hreik e Bi’r Hassan). Na verdade, a nova classe emergente de engenheiros e arquitetos locais foi em sua maioria empregada no processo de reconstrução.

Contudo, como os relatos da vida cotidiana dos moradores têm mostrado até agora, a recostrução pós-guerra criou novas desigualdades locais. É notável que, pelos olhos dos residentes locais, afiliação política e uma rede de contatos de wasta parecem ser um dos únicos fatores necessários para se beneficiar de qualquer regime de assistência, mesmo para cidadãos libaneses.

Atos de assistência e apoio são designados a servir o cidadão médio do Dahiye, representando o primeiro estágio de um contrato social entre o cidadão e o município e suas organizações locais afiliadas, mais do que entre o cidadão e o Estado central. No entanto, este “contrato social local”, inexistente em um nível nacional, é rejeitado por aqueles cidadãos do Dahiye que permanecem relutantes perante um projeto municipal hegemônico: o único capaz de fornecer um esquema de cidadania tangível nos subúrbios do sul.

Dentro da estrutura de um sistema político sectário e de desigualdades sociais baseadas em etnia, a crescente diversidade étnica do Hay al-Gharbe não facilita a afiliação de moradores heterogêneos de facções políticas específicas, o que seria capaz de, por sua vez, chamar a atenção internacionalmente e fornecer serviços básicos para o bairro.

Hay al-Gharbe, portanto, se apresenta como o “espectro da política” (Das e Davidson, 2011), denunciando os aspectos negligentes do Estado central assim como do governo engenhoso do Hezbollah no município de al-Ghobeiry. A vida reclusa destas pessoas, cujos rostos vestem o véu da miséria em al-Ghobeiry, permite que o governo local e sua negligência saiam impunes. A guerra de 2006 e a subsequente reconstrução deveria ter re-estratificado a sociedade libanesa, a recente falta de emergências diretas na favela — que normalmente geram uma série de projetos de longa duração e de locais seguros — desfavoreceu seus habitantes ainda mais, uma vez que eles não foram afetados diretamente pelos ataques de Israel e não se beneficiaram dos projetos de reconstrução.

O estudo de Hay al-Gharbe revela que a pobreza identificada no Dahiye é moldada por políticas de identidade e não somente por questões sócio-econômicas. O fato de que o humanitarismo internacional tende a não interferir em lugares onde não há interesses políticos é empiricamente confirmado pela existência — e situação crônica — deste assentamento ilegal.

A maioria da indústria humanitária ignorou a favela tanto quanto o Estado libanês. Na verdade, a principal razão para as intervenções de guerra é a declaração oficial de estado de “emergência”, mas deveria ser traçada pelo indicador político a que o território está atribuído. Este é o motivo pela qual a guerra eclode em lugares específicos do Líbano ou de outros países. Neste sentido, tanto agentes estatais quanto não estatais são vistos por terem negligenciado um local que não é considerado “humanizável”, uma vez que fica fora de sua agenda política.

Deve ser notado que o Líbano não é um signatário da Convenção para Refugiados de 1951 e é, portanto, classificado como um país de trânsito. Com relação a isso, refugiados palestinos, iraquianos e sudaneses, mesmo que eles não consigam obter um status legítimo que assegure sua vulnerabilidade como refugiados, ainda são classificados como de fato aptos a receberem ajuda, mesmo que insuficiente e desorganizada.

Em contrapartida, os libaneses desfavorecidos que encontrei em Hay al-Gharbe, e cujas vozes reportei aqui, permanecem fora das políticas de inclusão que o Hezbollah cada vez mais parece promover — especialmente após a guerra de julho — e que continuam sendo ignoradas pelas políticas discriminatórias do Estado. A falta de rótulos étnicos, políticos e confessionais úteis e de wasta com governantes resulta em uma vida negligenciada e reclusa. Neste cenário, a vulnerabilidade é configurada como falta de contatos sociais, influência, recursos e, em especial, contato com capital humano externo (Price Wolf, 2007).

As políticas territoriais do projeto de reconstrução do Dahiye foram bem sucedidas no que diz respeito a compensação da guerra — realizadas dentro de um curto período de tempo, e sem qualquer discriminação sectária, confirmaram a continuidade entre a destruição urbana proveniente da guerra e a reconstrução como uma inversão deste processo em espaços hegemônicos. Contudo, dentro da ampla demografia libanesa sectária e étnica, tal continuidade é interrompida sempre que em um distrito urbano há eventualmente ausência de atenção política devido à sua identidade social menos definida.

Além da abdicação do Estado central de suas responsabilidades, as condições extremas que persistem em Hay al-Gharbe são um xeque-mate do pós-guerra no sobrevalorizado projeto Waad de reconstrução do Dahiye. A redistribuição de recursos do projeto Waad tem sido considerada como igualitária e eficiente, devido à estratégias de compensação destinadas a apagar a sensação de destruição da esfera pública e evitar o ressentimento generalizado contra o Hezbollah em relação a repercussão da guerra de 2006.

Cidadania como Estratégia Discursiva: Hay al-Gharbe no âmbito dos Subúrbios do Sul de Beirute

Ao contrário de Hay al-Gharbe, o Dahiye dominante, normalmente denominado ad-Dahiye al-mazbuta (Harb, 2006), é conhecido por pessoas de fora por conta dos bombardeios israelenses que atingiram a área incontáveis vezes na história do Líbano e também porque é considerado pela mídia internacional como o reduto do Hezbollah.

O setor da periferia destruído pelos aviões israelenses tem sido visto como um local de escolha. Considerando que estes distritos gentrificados são os únicos em que municípios do Dahiye e associações afiliadas ao Hezbollah fornecem serviços básicos e entretenimento (Deeb e Harb, 2010), o desejo das pessoas de se tornarem integrantes do Dahiye passou a ser muito mais forte. Por outro lado, Hay al-Gharbe é um lugar onde as pessoas acabam morando por necessidade, mas também porque são indesejadas e desfavorecidas, o que transforma o local em um dos microcosmos de exclusão do cidadão no Líbano.

Hay al-Gharbe não pode ser considerado um “local de escolha”, uma vez que seus habitantes não têm a oportunidade de desafiar a narrativa predominante da classe e da cidadania, o que contribue para a afirmação de certas hierarquias sociais. Isto acontece devido à impossibilidade de “posicionamento público” (Holston, 2009), ou seja, de reivindicar direitos legais, cívicos e sociais na condição de cidadãos no espaço do Dahiye. Os moradores, por não serem donos da terra, não podem nem mesmo pedir qualquer direito de mobilidade, pois a residência urbana é normalmente a base para a mobilização.

De fato, naquelas áreas onde o espaço público atrai humilhação e o medo de se mudar, uma vida reclusa é preferida e a vulnerabilidade permanece sendo o discurso dominante nos áreas clássicas da condição de refugiado e de migração econômica. Neste cenário, a cidadania pode ser concebida como uma mera observadora e gestora das diferenças no Líbano e é implementada por meio da proteção e prestação de serviço, sempre que as relações de poder subjacentes expressam sua assertividade em favor do beneficiário.

A política de identidade em relação ao acesso aos serviços tem sido abordada apenas parcialmente pelos estudiosos. No caso específico do Líbano, embora haja um vasto leque de literatura sobre políticas e alocação de recursos relacionados às comunidades confessionais (Fawaz, 2005; Jawad, 2007; Harb, 2010), a politização do bem-estar (Ben-Nefissa et al., 2005; Cammett, 2014) e o papel da religião nas associações de bem-estar durante e após a guerra civil do Líbano, as áreas cinzentas entre o bem-estar diário e os estados de emergência não foram pesquisados.

Como prova da diminuição da assistência dada aos cidadãos não afiliados politicamente, mesmo dentro do “Dahiye hegemônico”, segue o relato de ‘Abbas, um libanês desempregado já nos seus 50 anos que ficou desabrigado em 2006. Enquanto jantávamos em sua casa em Haret Hreik ele disse:

“As folhas de vinho que você está comendo são do nosso quintal no Sul. Depois da guerra não consegui encontrar nenhum emprego por aqui… Nossos bolsos estão vazios, porque não conhecemos ninguém na política”.[9]

Igualmente, Farah, um jovem padeiro libanês em Bi’r al-‘Abed, estava reclamando do fato de que antes do harb tammuz o Hezbollah costumava conceder empréstimos para pequenas empresas:

“Agora o custo de vida ficou exorbitante. Eles acham que estamos em Dubai? Após a guerra, devido à falta de petróleo, os motoristas [táxi compartilhado] aumentaram a taxa da corrida de LBP 1,500 para LBP 2,000 [libra libanesa]. Nunca mais voltou ao que era antes. A vida se tornou impossível. Não tenho poder de compra.”[10]

Apesar do sentimento pessoal de posse territorial e de pertencimento, Ahmad, 32 anos, e dono de uma loja em al-Ghobeiry, queixou-se sobre a falta de ideias não dominantes: “Se você não se enquandrar na Resistência, vocês está sozinho, por conta própria. Eles tiram de você o que ganhou nos tempos da guerra”.[11]

Da mesma forma, Salwa, uma jovem de Haret Hreik lamentou o fato dos municípios locais abandonarem pessoas carentes, ao contrário dos anos anteriores à guerra de 2006:

“Se você não tem um mártir ou um ferido entre os membros de sua família por causa de uma das guerras do Hezbollah, você está ferrado. Há vários serviços de caridade para categorias especiais, para mostrar que o partido está engajado e coisas assim…”[12]

Nawal, um cabeleireiro de al-Mreije, um distrito de maioria cristã dentro dos subúrbios do Dahiye conta:

“Não precisa ter medo de mim [risos], eu não tenho nada a ver com esses mestres da guerra que mandam na área […]. Eles conhecem sua família melhor do que você! Eles só dão ajuda aos xiitas agora, não é mais como durante o harb tammuz. O resto que vocês escutam por aí é só propaganda. Se você não está engajado com a política deles você se torna ninguém.”[13]

Para discutir a cidadania em Hay al-Gharbe e o papel que o status legal dos cidadãos tem na negação do acesso aos regimes de bem-estar, vale mencionar a eterna retórica anti-Estado presente nos subúrbios do sul de Beirute: uma retórica que, apesar de inflada pelo Hezbollah para ganhar consenso local, é produzida a partir do abandono da área pelo Estado, e mesmo pela hostilidade do mesmo, largamente percebida na região.

Este projeto hegemônico de cidadania territorial é citado e praticado em oposição ao Estado central, mesmo quando as fronteiras entre o Estado central e o partido fluem bem. A respeito disso, vale ressaltar que a retórica anti-governo adotada pelo partido xiita permaneceu a mesma mesmo quando o Parlamento Libanês foi, sobretudo, liderado pela coalização de 8 de março, a qual faz parte o Hezbollah. Mesmo sob o domínio do antigo Primeiro Ministro Libanês do governo de Najib Miqati, considerado politicamente próximo ao Hezbollah, os habitantes de Dahiye enxergavam o governo central como o inimigo, que não protegia seu povo das invasões e destruições de Israel.

Dito isto, uma posição ideológica reificada contra o Estado central serve melhor o modelo de cidadania que o Hezbollah vem construindo no Dahiye ao longo dos anos no nível municipal, que é considerado participativo, principalmente após o término da ocupação israelense no Líbano (2000).  Neste contexto, a noção de cidadania deve ser entendida como um contrato social entre cidadãos locais e municípios do Dahiye, sem considerar uma implicação nacional mais ampla.

Do ponto de vista destas considerações, a linguagem da cidadania ortodoxa sofre para descrever o cenário libanês em termos de direitos e responsabilidades, o que deveria estar fora dos padrões clássicos que constituem o Estado Nacional. Contudo, uma noção pragmática de cidadania ainda pode ser uma ferramenta epistêmica fundamental para identificar novas linhas de inclusão e exclusão.

No Dahiye, o senso cívico, como apresentado pelo sociólogo Robert Putnam (1994), i.e. a aceitação dos direitos e obrigações que qualquer cidadania implica ainda é vista como sectária tanto pelos locais como por estrangeiros, principalmente moradores que não se identificam com o projeto de cidadania hegemônica territorial implementada pelo principal governante local, o Hezbollah.

Alguns dos testemunhos que coletei no Dahiye pareciam ser uma tentativa de desafiar uma cidadania hierárquica que corre ao lado da afiliação política, mas que ainda lutam para se materializar em ações políticas que, por sua vez, levariam a um governo idealmente assertivo e que funcione bem para assim expandir sua esfera de justiça social. Isto é devido ao fato de que a melhoria sócio-econômica de uma parte do Dahiye é relativamente recente e decorrente da instabilidade destes subúrbios e sua permanente exposição aos conflitos locais e regionais.

Como ilustrei por meio do ponto de vista das pessoas, bem-estar social é seletivamente implementado e melhorado com base nas relações políticas que cada indivíduo ou família desenvolveu ao se juntar a redes sociais específicas. Neste contexto, gostaria de ressaltar que a ação política ainda é interpretada como uma expressão de identidade, mais do que uma mera estratégia maquiavélica utilizada para ganhar benefícios. Portanto, o estereótipo em torno da qual a ideia do Dahiye foi construída ao longo das décadas — a área perigosa que abriga xiitas miseráveis sempre “prontos para morrer” — leva a uma interpretação de identidade como um incentivo político em vez de um ato performativo resultante de certas condições sociais e econômicas. Como resultado, categorias abstradas do Dahiye como xiitas e “refugiados palestinos” são arbitrariamente usados como identificadores de individualidades políticas puras.

A política — não somente “islâmica” — da Resistência promovida pelo Hezbollah ainda é um modelo predominante de cidadania territorial, funcionando como um fator de coesão da malha social dominante. A questão da Resistência apareceu em minha discussão uma vez que os participantes da pesquisa expressivamente associaram a melhoria econômica e o acesso aos serviços com o cumprimento de jure do cidadão a um ethos oficial traçado pelos governantes do Dahiye na esfera pública. Como em qualquer sistema de valores e crenças, definidos em termos de ética social, alguns moradores locais não se sentem representados e, portanto, motivados a aderirem aos padrões éticos e políticos fornecidos pelo partido. Nestes casos, a cidadania é de facto interrompida. Esta análise sociológica do Dahiye nos ajuda a entender como a cidadania interrompida de Hay al-Gharbe deveria ser detectada em diferentes políticas negligentes de gerenciamento do espaço e de reassentamento. Políticas que mantém o conforto em viver em sociedade e o conforto da mobilidade na área como reféns ao defender o fornecimento escasso de assistência para alguns enquanto ignorando outros, em conformidade com uma ditadura de distribuição de recursos orientada pela identidade — e atenção dos pesquisadores.

Discussão e conclusão

Neste artigo, a noção de cidadania foi utilizada como uma ferramenta discursiva capaz de descobrir as não estudadas desigualdades do Dahiye, que têm muitas vezes se mostrado invisíveis ou homogeneizadas pelos estereótipos criados ao longo da história do chamado “cinturão da miséria” (Harb, 2006).

De um lado, quando adotamos a perspectiva dos moradores locais, a cidadania é representada como um sentimento de pertencimento e na forma de reivindicação territorial. Por outro, também é concebida por dissidentes da hegemonia local como a adoção de valores éticos que são impostos de cima para baixo. Neste sentido, a cidadania de facto — embora aqui citada como meramente municipal — é mantida por pessoas que estão dispostas a obedecer a ética dominante do Dahiye. Tais cidadãos de facto territoriais contribuem para criar, por assim dizer, uma ditadura de indivíduos privilegiados ou simplesmente emancipados entre os diversamente definidos como vulneráveis, e constituindo, portanto, os únicos cidadãos reais dentro de um Estado ainda relaxado.

Minha crítica a homogeneização do Dahiye — o que certamente não é novidade para pesquisadores locais e internacionais — procura trazer ao primeiro plano como a política de identidade informa a política de bem-estar, e o quão grotesca ad hoc é a intervenção humanitária nos distritos do Dahiye atingidos pela guerra, enquanto a vulnerabilidade crônica não relacionada a guerra é negligenciada.

Esses mesmos grupos vulneráveis ​​são aqueles que Chamber (1986) chamaram “os perdedores escondidos”. Estes ciclicamente se encontram em competição com recém-chegados pobres que tendem a se mudar para essas áreas financeiramente mais acessíveis durante deslocamentos e crises de emergência.

De acordo com a lógica do aparato humanitário impulsionada pela emergência, qualquer pesquisador — também me inclua — tende a abordar os subúrbios do sul como se fossem um mero local para escrever sobre guerra e patografias pós-guerra. Logo, neste contexto de assistência humanitária e desenvolvimento de projetos de longa duração que proliferaram no Dahiye após a guerra de julho de 2006, os espaços heterogêneos de exclusão nos subúrbios, excluídos do recente processo de gentrificação urbana e que abrigam cidadãos cuja falta de vulnerabilidade classificável os nega acesso aos serviços, lutam para se destacarem em um habitat social mais amplo.

Provida de uma visão mais ampla do ambiente dos subúrbios, foi possível ilustrar, em relação a vulnerabilidade do cidadão, a marginalização social de grupos de refugiados, como o povo palestino que citei, crônicamente deixado de fora do modelo hegemônico de cidadania municipal estabelecido pelo Hezbollah, e também discriminado por políticas estatais. Da mesma forma, foi possível ver como mesmo a cidadania normativa não fornece aos necessitados recursos básicos, a favela de Hay al-Gharbe é um exemplo. Portanto, cidadãos não afiliados politicamente, morando em lugares que não aparecem nos mapas oficiais porque são menos marcados politicamente e demograficamente híbridos, se encontram nas mesmas condições extremas que os refugiados (permanentes). Em um ambiente em que a vulnerabilidade não é apenas sobre a exposição à guerra, mas também sobre a política representando estas guerras, e se a condição de refugiado e a vulnerabilidade correm em paralelo por definição, ter o status de cidadão ainda pode levar ao desempoderamento.

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[1] ‘Abd-el-Rahim, Hay al-Gharbe, 19 outubro, 2012.

[2] Visita domiciliar em Hay al-Gharbe, 29 janeiro, 2013.

[3] Tradução de árabe para português.

[4] Hay al-Gharbe, 11 fevereiro, 2013.

[5] Decreto Ministerial No. 17561 do 10 Julho 1962.

[6] Hay al-Gharbe, 21 janeiro, 2013.

[7] 15 fevereiro, 2013.

[8] Hay al-Gharbe, 13 fevereiro, 2013.

[9] Haret Hreik, 27 janeiro, 2012.

[10] Bi’r al-‘Abed, 23 janeiro, 2012.

[11] Al-Ghobeiry, 13 outubro, 2011.

[12] Haret Hreik, 15 outubro, 2011.

[13] Al-Mreije, Beirut, 31 outubro, 2012.

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Revisiting Vulnerability in a Slum of Beirut: when Citizenship Disempowers (by Estella Carpi, July 2015)

http://cskc.daleel-madani.org/paper/revisiting-vulnerability-slum-beirut-when-citizenship-disempowers

Publishing Date:

July 15, 2015
Author(s): Estella Carpi
Abstract:
Refugees in Lebanon have always occupied the lowest level of the Lebanese social pyramid, often denied access to public services, and not even being legally recognized as refugees. From the refugee perspective, citizenship, however produced within a wavering and corrupted state system, seems to be the only tool guaranteeing basic services. The present paper shows how, in particular cases like the Beirut suburb of Hay al-Gharbe—inhabited by refugees, migrant workers, and a small number of disadvantaged Lebanese—citizenship rather than refugeehood is the legal status preventing the vulnerable from accessing any assistance regime in Lebanon. Their chronic vulnerability forces them to make a constant effort to adapt to poverty. The recent gentrification of the periphery and its external stigmatization as wholly vulnerable ended up obscuring internal exclusion and inclusion phenomena, rarely discussed in relation to people’s everyday pragmatics of survival. In this framework, while refugee and migrant workers’ poverties have become the only external interpretative lens to explore vulnerability in Lebanon, a kind of urban poverty, which is neither connected to the political violence of regional wars nor to the flawed refugee regime, will be investigated through ethnographic methods.
Keywords: Chronic Neglect, Poverty, vulnerability, Citizenship, Political Loyalty, Identity Politics

To cite this paper: Estella Carpi, “Revisiting Vulnerability in a Slum of Beirut: when Citizenship Disempowers”, Civil Society Knowledge Center, Lebanon Support, 2015-07-15 00:00:00.
[ONLINE]: http://cskc.daleel-madani.org/paper/revisiting-vulnerability-slum-beirut-when-citizenship-disempowers

Full text:
Image source: Estella Carpi

Introduction

Beirut’s southern suburbs, considered the “periphery” par excellence in Lebanon, were named “Dahiye” in 1982 after being called the “belt of misery”—hizam al bu’s—in addition to Southern Metn. Dahiye is located between the agro-industrial area of the district of Choueifat and the municipality of Hadath.1 Nowadays, the southern suburbs of the Lebanese capital are mostly administered by the main Shiite party Hezbollah, which prevailed over the minor Shiite party Harakat Amal in the 1990s.

The homogenisation of a desolate and miserable Dahiye has often overshadowed the different causes of local chronic poverty and the emerging forms of exclusion not merely triggered by migration flows, refugee crises, or abstract economic structures, but rather by political issues that remain unaddressed at the domestic and international levels. The 2006 reconstruction of Beirut’s Dahiye has been monopolized by the Waad project designed by the Iranian-funded NGO Jihad al-Binaa, the most successful reconstructor in the areas directly affected by the 2006 July war that are indistinctively viewed as politically marked by Hezbollah’s governance. The reconstruction efforts left unaddressed the areas of Dahiye suffering from perennial vulnerability,2 and generally constituting politically “anonymous” spaces or politically unaffiliated ones.

These Dahiye neighbourhoods, like the illegal settlement of Hay al-Gharbe—subject of analysis in my field research from 2011 to 2013—have actually not been the targets of military attacks and, therefore, have never been declared in a ‘state of emergency’.

I will therefore illustrate how the social milieu of Hay al-Gharbe is discussed by those of its inhabitants who are affected by non-war related vulnerability. This paper also shows how the lack of local welfare affects individuals in areas neglected by both the state and non-state actors when emergency politics govern the social spaces. In this framework, human behaviour is not framed by the structural character of urban poverty, but by the subject’s cultural perceptions,3 which also entails different imaginations and social schemes of poverty within the Lebanese scenario.4 The array of norms and values that underlie such schemes emerge from the human adaptability to the poverty experience. The Hay al-Gharbe study stands in contrast with the only possibility of practical citizenship in the Dahiye area, which is political affiliation to, local compliance with, or non-contestation of the dominant social ethics.

Research Methods

In the framework of my doctoral research, I have carried out approximately 90 in-depth interviews between September 2011 and November 2013 with Dahiye’s residents, who had been beneficiaries or non-beneficiaries of the humanitarian aid provided during and after the 2006 Lebanon-Israel July war — harb tammuz — which caused an unprecedented level of infrastructural destruction in Lebanon. I also conducted 68 semi-structured interviews in different suburbs of Beirut with international and local non-governmental organizations, UN agencies, and local municipalities, which provided humanitarian assistance to the displaced in 2006.

I casually walked into the area of Hay al-Gharbe several months after the beginning of my doctoral fieldwork. Despite being part of the Dahiye area, the majority of my Lebanese friends and interlocutors had never heard of this slum located to the west of Shatila. Since then, Hay al-Gharbe became the litmus paper of my research on the humanitarian programs in the war-stricken Greater Beirut areas.5

In the interpretation of data and analysis of findings, I have privileged a qualitative ethnographic approach in order to experience the answers provided by my interlocutors rather than merely collecting and reporting their verbal accounts. Thus, everyday participant observation — a classical research tool in anthropology — has allowed a more comprehensive understanding of the daily frames mentioned in the present article and is here considered as the primary epistemological source.

As will be evident, a wider qualitative analysis of how social spaces turn into humanitarian scenarios has provided me with the possibility to explore the gray areas of vulnerability lying between refugeehood and citizenship, and therefore unearthing the understudied inequalities of Dahiye.

Hay al-Gharbe: Political Non-Affiliation and Chronic Marginalization 

Hay-Gharbe is an illegal settlement bordering the Palestinian camp of Shatila and the former camp of Sabra — now simply called tajammu‘, “settlement” — under the municipality of al-Ghobeiry, which is administered by the main Shiite Lebanese party Hezbollah. Sabra and Shatila became notorious because of the massacres perpetrated by the Israeli-Phalangist alliance in September 1982 during the Lebanese Civil War (1975-1990).

The borders of this settlement are not merely physical; they are connected to community identities. In fact, its configuration changed during the Lebanese Civil War because of the inhabitants’ migration to the current stadium, Camille Chamoun (al-medina ar-riadiyya), as a result of the frequent bombing of the Palestinian camps at that time, and the fighting between different political factions.

In order to renovate the stadium in 1992, the occupants, former inhabitants of Hay al-Gharbe, were evicted, and returned to the settlement. The settlement has always been distinguished from the Shatila camp for its varied urban composition. Moreover, the residents themselves often expressed their refusal to be associated with the Palestinian refugee camp, as the latter was a frequent target of attacks by various political forces and, therefore, drawing special attention from international politics.

In particular, the Lebanese residents who feared a long-lasting conflict in 2006 or a sharpening of violence in the 2008 Shiite-Sunni clashes had moved away from the area, only to return there later, unable to settle elsewhere in the Lebanese capital.6

The majority of Hay al-Gharbe’s residents are Dom (72%), descendants of nomads who populated the courts of India between the third and tenth centuries, and who are now based in the Middle East. The settlement is also inhabited by Palestinians who have not found accommodation in the refugee camps; regional refugees and migrant workers from Asia and Africa (especially Iraqis, Sri Lankans, and Syrians) also make up a sizeable percentage of Hay al-Gharbe’s residents, and form a marginalized sphere in the multifaceted reality of Dahiye. Hence, Lebanese citizens make up only a small portion of the suburb’s population.

It should be noted that the Dahiye neighbourhood, where Hay al-Gharbe is located, can accommodate up to 80,000 people. In 1995, however, it was already housing 500,000 residents.7 The social groups residing in Hay al-Gharbe — 10,000 people in total — tend to isolate themselves and avoid any interaction with one another, and with the other Dahiye’s residents.8 Moreover, most of the residents are women and children, given that nearly 20% of men are detained in prison. Increased rates of criminality can be attributed to prolonged poverty and the rise of urban violence.9

Because of different national proveniences and cultural habits, and the dizzying rate of urbanization, the aforementioned demographics have never been assimilated into Dahiye’s urban fabric, impeding the formation of a fully integrated urban community. The lack of integration as a result of a surge in urbanization is a generalizable sociological phenomenon in Lebanon.10

In general, the rapid urbanization process that rural immigrants underwent has paved the way to the formation of illegal settlements, the dismantling of which remains difficult in a country where the institutions are too lax and corrupt to enforce rules. The Lebanese government, for its part, has no interest in investing in the development of infrastructural areas that have proliferated illegally.

As evidence of such a feeling of social isolation, Fatma,11 14 years old, showed me her unpaired shoes and exclaimed:

“I never leave the house, I find it humiliating… look at my shoes, they are unpaired and I cannot afford to buy new ones. I have no friends; if you hang out with them, they just talk about what they have. And then, I have nothing to tell… That’s fine, I got used to it. If I didn’t, I would suffer.”

Najwan is a Palestinian woman holding Lebanese citizenship due to her marriage to a Lebanese.12 She told me she had always lived in Hay al-Gharbe because her family had no political connections and, therefore, had no opportunity either to study or to find a job.13

“I would like to send my children to school now, but it’s a damn vicious cycle: with what money could I do it? They will die the same way I will: with no one being there to take care of them.”

It is worth noting that the only accessible aid provision for Najwan’s family was the one to which Palestinians are entitled. This led Mohammed, one of my Lebanese interlocutors, to nationally identify with Palestinian refugees, while feeling betrayed by the Lebanese after he was fired from the Sabra vegetables markets where he used to work, up until six years ago:

“The Syrians stole my job, and my Lebanese boss simply wanted someone more exploitable than me. I transferred the Lebanese citizenship to the whole family, but this didn’t change much for us. We didn’t ‘welcome’ any Israeli missile here in the house. And, with the Hezbollah administration, this is how it works: no physical damage caused by Israel, no help for you. You need to know that the few families that own citizenship in Hay al-Gharbe have pledged their loyalty to local parties, by voting for them in local elections. Candidates promise to provide more affordable generators, manage better garbage dumps, and give good quality water. What we would do for some good quality water! In order not to pay for drinking water, some residents literally enslave themselves to political parties… Can you see my daughter’s hijab? She doesn’t wear it because she really wants it, or because we want that… She wears it because she started losing her hair due to the salty water of the shower!”

Najwan and her family—half-Palestinian, half-Lebanese—did not embody the precariousness resulting from war emergencies, but rather, the vulnerability addressable by long-term humanitarian assistance for Palestinians. At the same time, Najwan’s family is associated with chronic poverty caused and exacerbated by sporadic displacements during the civil war, and discriminatory state (and NGOs) policies.

Wafiq,14 a 40-year-old Lebanese man residing in Hay al-Gharbe, said he was grateful that his mother was Palestinian, in that this ensured his family’s access to the remittances of the Palestinian migrant communities:

“Thanks to the Beit Atfal as-Sumud (‘The [Palestinian] House of Steadfast Children’), we’re provided with livelihoods, which, however, are only sufficient to survive.15Lebanese people like my father never had wasta [useful personal connections], and so we never accessed public services, which are too expensive for us… Can you believe me? What’s the use, then, of the Lebanese nationality! Here we have no drinking water, no electricity; there is only one school and a health service provider in the district thanks to few associations. Yet no national army here protects us, neither the police nor the state… No one cares at all.”

Likewise, Fathi,16 a Lebanese older man who used to lead an indoor life in Hay al-Gharbe because of his extreme poverty, stated:

“I fought with Fatah ad-Dahiye in the ‘war of the camps’ in 1987. At that time, they were making many promises: ‘If you fight, you will receive whatever you and your family need’. I haven’t seen any improvement, any help. I’m just sick of seeing lies parading as revolutions and resistances. My life is so much worse now than in the years of the Civil War.”

Amira,17 a 13 year-old Lebanese teenager, said that after 2008 she returned to live in Hay al-Gharbe with her parents, but

“Nothing belongs to us here. The land belongs to the municipality, and they could evict us whenever they want. That’s why we live locked in the house. Unless we show our face, most of us go unnoticed and get forgotten. And the more we are forgotten, the better. There is no safety. I forget what there is outside, and thanks to this I resist.”

The invisibility of Hay al-Gharbe, even within the outskirts of Dahiye, is due to the longstanding state neglect and the lack of interest of international humanitarian organizations, which tend to intervene in areas that are less involved in global politics.

Indeed, non-governmental structures — which played a great interventional role in Dahiye during the 2006 July war — have neglected areas of severe chronic vulnerability and urban poverty, but not derived from war and violence.18

After the Pyrrhic victory of Hezbollah in the 2006 July war, the party reached its greatest popularity by distributing resources with no sectarian discrimination; the most heavily bombed districts of Dahiye, therefore, reached unprecedented levels of economic development and gentrification (i.e. Haret Hreik and Bi’r Hassan). In fact, the new emerging class of local engineers and architects was largely employed in the reconstruction process.

Nevertheless, as the people’s accounts of their everyday life have shown so far, postwar reconstruction engendered new local inequalities. It is telling that, in the eyes of the local residents, political affiliation and social networks of wasta seem to be the only determining factors for them to benefit from any assistance regime, even for Lebanese citizens.

Acts of assistance and support are designed to serve the average citizen of Dahiye, representing the first stage of a social contract between the citizen and the municipality and its affiliated local organizations, rather than between the citizen and the central state. However, this “local social contract”, inexistent at a national level, is rejected by those citizens of Dahiye who remain reluctant in front of the hegemonic municipal project: the only one able to provide a tangible citizenship scheme in the southern suburbs.

Within the framework of a confessional political system and ethnic-based social inequality, the growing ethnic diversity of Hay al-Gharbe does not facilitate the affiliation of heterogeneous residents with specific political factions, which would be able, in turn, to draw international attention and provide basic services to the neighbourhood.

Hay al-Gharbe, thus, presents itself as the “spectrum of the political”,19 denouncing the neglectful aspects of the central state as well as of Hezbollah’s resourceful governmentality in the Municipality of al-Ghobeiry. The indoor life of these people, whose faces wear the veil of misery in al-Ghobeiry, allows the local governors to get away with their negligence. Should the 2006 war and subsequent reconstruction have re-stratified Lebanese society, the recent lack of direct emergencies in the slum—which usually engender a series of long-term projects and safety nets—has disenfranchised its inhabitants further, in that they were not directly stricken by the Israeli attacks and they did not benefit at all from the reconstruction projects.20

The Hay al-Gharbe case study reveals that Dahiye’s spotted poverty is shaped by identity politics and not only by socio-economic matters. The fact that international humanitarianism tends not to intervene in places where there are no political interests is empirically confirmed by the existence — and chronic predicament — of this illegal settlement.

Most of the humanitarian industry ignored the slum as much as the Lebanese state did. In fact, the major reason for wartime interventions is the official declaration of a state of ‘emergency’, but it should be traced back to the political marker that a territory is vested with. That is the reason for war breaking out in specific places in Lebanon or elsewhere. In this sense, both non-state and state actors are seen as neglecters of a space that is not considered “humanizable”,21 in that it resides outside of their political agenda.

It should be noted that Lebanon is not a signatory to the 1951 Convention for Refugees, and it is therefore classified as a transit country. With regards to this, Palestinian, Iraqi, and Sudanese refugees, even if they cannot gain a legitimate status that ascertains their vulnerability as refugees, are still classified as de facto suitable for aid, however insufficient and uncoordinated.

By contrast, the Lebanese have-nots who I met in Hay al-Gharbe, and whose voices I have reported here, remain left out of the politics of inclusion that Hezbollah increasingly seemed to foster — particularly after the July war — and which remain unaddressed by the state’s discriminatory policies. The lack of ‘helpful’ ethnic, political, and confessional labels and wastawith the governors engender a life of neglect and indoor one unreachability. In this framework, vulnerability is configured as a lack of social connections, influence, resources, and, in particular, contact with external human capital.22

The territorial politics of Dahiye’s reconstruction project were successful in compensating the war-stricken within a short period of time, and with no confessional discrimination, confirming the continuity between urban destruction due to war, and reconstruction as a reversal of that process in hegemonic spaces. Nevertheless, within the broader Lebanese confessional and ethnic demographics, such continuity is disrupted whenever a urban district contingently lacks political attention due to its less definable social identity.

Aside from the central state’s abdication of responsibilities, Hay al-Gharbe’s persistently dire conditions are a postwar checkmate to the over-celebrated Waad reconstruction project in Dahiye. The Waad project’s redistribution of resources has been deemed as equal and efficient, owing to compensation strategies meant to erase the sense of destruction from the public sphere, and avoid a generalized resentment against Hezbollah in the aftermath of the 2006 war.

Citizenship as a Discourse Strategy: Hay al-Gharbe in the framework of the Southern Suburbs 

Unlike Hay al-Gharbe, the dominant Dahiye, commonly referred to as ad-Dahiye al-mazbuta,23 is well known to outsiders both because of the Israeli bombing that hit the area countless times in Lebanon’s history, and because it is considered in international media as Hezbollah’s stronghold.

The section of the periphery destroyed by the Israeli aviation has been viewed as a place of choice. Seeing as these gentrified districts are the only place where the Dahiye municipalities and Hezbollah-affiliated organizations provide basic services and entertainments,24 people’s desire to become civic members of Dahiye has become much stronger. On the other hand, Hay al-Gharbe is a place where people end up residing out of necessity, but also because they are unwanted and out of necessity, constituting one of the microcosms of citizen exclusions in Lebanon.

Hay al-Gharbe cannot be considered as a “space of choice” in that the inhabitants do not have the opportunity to challenge the predominant narrative of class and citizenship, which contributes to the affirmation of certain social hierarchies. This happens due to the impossibility of ‘public standing’,25 that is to say claiming legal, civic, and social rights in the capacity of citizens in the Dahiye space. The residents, not owning the land, cannot even claim any right to mobilize, as urban residency is normally the basis for mobilization.

In fact, in those areas where public space attracts humiliation and the fear of moving, an indoor life is preferred, and vulnerability remains the mainstream discourse in the classical fields of refugeehood and economic migration. In this scenario, citizenship can be conceived as the mere shadowing and managing of Lebanon’s differences, and is enacted through protection and service provision whenever the underlying power relations express their assertiveness in favour of the beneficiary.

As evidence of the decreasing assistance that politically non-affiliated citizens receive even within the “hegemonic Dahiye”, ‘Abbas, an unemployed Lebanese man in his fifties who got displaced in 2006, while we were having dinner at his place in Haret Hreik, told me:

“The stuffed wine leaves you’re eating are from our yard in the South. After the war I didn’t find any job around here… Our pockets are empty, because we know no one in politics”.26

Similarly, Farah, a young Lebanese baker in Bi’r al-‘Abed, was complaining about the fact that before harb tammuz, Hezbollah used to give more loans to small enterprises:

“Now the cost of living has become unaffordable. Do they think we’re in Dubai? After the war, due to oil shortage, service [shared taxi] drivers increased the ride fee from LBP 1,500 to LBP 2,000 [Lebanese Lira]. It never got back to how it was after then. Life has become impossible. I have no purchasing power.”27

Despite the personal sense of territorial ownership and belonging, Ahmad, a 32 year-old shop owner in al-Ghobeiry, complained about the lack non-dominant ideas:

“If you don’t fit the Resistance, you’re alone, on your own. They take back from you what you were given in times of war”.28

Similarly, Salwa, a young girl in Haret Hreik complained about the local municipalities abandoning needy people, unlike the years prior to the 2006 war:

“Now if you don’t have a martyr or an injured among your family members because of one of Hezbollah’s wars, you are screwed. They’re all charity services for particular categories, to show that the party is engaged and stuff like that…”29

Nawal, a hairdresser in al-Mreije, a mostly Christian district of Dahiye’s suburbs, also told me:

“Don’t fear me [laughing], I have nothing to do with these masters of war ruling the area […]. They know your family better than you! They just give aid to Shiites now, not like during harb tammuz. Anything else you hear around is propaganda. If you’re not engaged with their politics you become no one.”30

In order to discuss citizenship in Hay al-Gharbe and the role of citizens’ legal status in denying them access to welfare regimes, it is useful to mention the eternal anti-state rhetoric present in the southern suburbs of Beirut: a rhetoric which, though inflated by Hezbollah to gain local consensus, is produced by the longstanding state abandonment of the area, and even state hostility, largely perceived at a local level.

This hegemonic project of territorial citizenship is referred to and experienced in opposition to the central state, even when the boundaries between the central state and the party are fluid. With regards to this, it is worth noting that the anti-government rhetoric adopted by the Shiite party remained the same also when the Lebanese Parliament was mainly led by the March 8 coalition, which Hezbollah is part of. Even under the rule of former Lebanes Prime Minister of Najib Miqati’s government, considered to be politically close to Hezbollah, the inhabitants of Dahiye have viewed the central government as an enemy, not protecting its own people from Israeli invasions and destruction.

That said, a reified ideological stance against the central state better serves the citizenship model that Hezbollah has been weaving over the years in Dahiye at the municipal level, which is considered participatory, especially after the end of the Israeli occupation of Lebanon (2000). Within this framework, the notion of citizenship must be understood as a social contract between local citizens and the Dahiye municipalities without a wider national implication.

In light of these considerations, the language of orthodox citizenship struggles to describe the Lebanese scenario in terms of rights and responsibilities, which should be outside of the classic patterns constituting the nation-state. Nevertheless, a pragmatic notion of citizenship can still be a fundamental epistemic tool to identify the new lines of local inclusion and exclusion.

In Dahiye, civic sense, as forwarded by sociologist Robert Putnam,31 i.e. acceptance of the rights and obligations that any citizenship implies, is still viewed as confessional by both locals and internationals, especially by residents who do not identify with the hegemonic territorial citizenship project implemented by the major local governor Hezbollah.

Some of the testimonies that I collected in Dahiye seemed to attempt to challenge a hierarchical citizenship running along political affiliation lines, but still struggle to materialize in political actions which, in turn, would prompt an ideally assertive and well-functioning government to expand its sphere of social justice. This is due to the fact that the socio-economic betterment of a part of Dahiye is relatively recent, and to the instability of these suburbs in their permanent exposure to local and regional conflicts.

As I have illustrated through the people’s own views, social welfare is selectively implemented and improved on the basis of the political ties that every individual or family develops by joining particular social networks. In this framework, I’d like to highlight that political action is still interpreted as an expression of identity rather than a mere Machiavellian strategy deployed to get benefits. Therefore, the stereotype around which the idea of Dahiye has been built throughout the decades—the no-go area hosting miserable Shiites always ‘ready to die’—leads to the interpretation of identity as a political incentive, rather than a performative act resulting from certain social and economic conditions. As a result, abstract Dahiye-categories such as ‘Shi‘a’ and ‘Palestinian refugees’ are arbitrarily used as identifiers of neat political individualities.

The politics of the — not only “Islamic” — Resistance promoted by Hezbollah is still the predominant model of territorial citizenship, functioning as a cohesive factor of the dominant social fabric. The issue of the Resistance has emerged in my discussion since the research respondents have meaningfully associated economic improvement and access to services with the de jure compliance of the citizen with an official ethos woven by Dahiye’s governors in the public sphere. Like in any system of values and beliefs, defined in terms of social ethics, some local residents do not feel represented and therefore motivated to adhere to the ethical and political standards provided by the party. In those cases, de facto citizenship is suspended. This sociological analysis of Dahiye helps us to understand how, instead, the suspended citizenship of Hay al-Gharbe should be tracked down to different spatial and resettlement policies of neglect, which holds social ease and comfort of mobility hostage in the area by championing scant assistance provision for some while bypassing others, in compliance with an identity-driven dictatorship of resource distribution — and researchers’ attention.

Discussion and conclusion

In this paper, the notion of citizenship has been used as a discursive tool capable of unearthing the under-researched inequalities of Dahiye, which have often been rendered either invisible or homogenized by longstanding stereotypes over the history of the so-called “belt of misery”.32

On the one hand, when adopting the perspective of local residents, citizenship is represented as a sense of belonging and in the form of territorial claim. On the other hand, it is also conceived by dissidents of local hegemony as the adoption of ethical values imposed from above. In this sense, de facto citizenship—although here meant as merely municipal—is held by the people who are willing to abide by Dahiye’s dominant ethics. Such de facto territorial citizens contribute to create, so to speak, a dictatorship of privileged or simply enfranchised individuals among the diversely definable vulnerable, and constituting, therefore, the only actual citizens within a still lax state.

My critique of Dahiye’s homogeneization—which is certainly not new to local or international researchers—seeks to foreground how identity politics informs the politics of welfare, and how grotesque the ad hoc humanitarian intervention in Dahiye’s war-stricken districts is, while chronic non-war related vulnerability is neglected. In accordance with the emergency-driven logic of the humanitarian apparatus, any researcher—myself included—tends to approach the southern suburbs as though they were a mere site for writing wartime and post-war patho-graphies. Hence, in the framework of humanitarian assistance and long-term development projects proliferating in Dahiye after the 2006 July war, the heterogenous spaces of exclusion in the suburbs, cut out of the recent process of urban gentrification and hosting citizens whose lack of classifiable vulnerability denies to them access to services, struggle to stand out in the larger social habitat.

Equipped with a larger overview of the suburbs’ environment, it has been possible to illustrate, in relation to citizen vulnerability, the social marginalization of refugee groups like the Palestinian people that I cited, chronically left out of the hegemonic model of citizenship municipally established by Hezbollah, as well as discriminated by state policies. Likewise, it was possible to see how even normative citizenship does not provide the very needy with basic resources, the slum of Hay al-Gharbe being an example. Therefore, politically unaffiliated citizens, inhabiting spaces which do not appear on official maps because they are less politically marked and demographically hybrid, find themselves in the same dire conditions as the (permanent) refugees. In an environment in which vulnerability is not only about exposure to war but also about the politics underlying these wars, if refugeehood and vulnerability too often run parallel by definition, holding the status of citizen can still lead to disempowerment.


Estella Carpi is a final PhD Candidate in Social Anthropology at the University of Sydney, and a Social Science Researcher at Trends Research & Advisory. Since 2010, she has been conducting research on the social response to humanitarian assistance in Lebanon from the 2006 war against Israel until the Syrian refugee influx. After studying Arabic in Milan and Damascus (2002-2007), Carpi received her master’s degree from the University of Milan. Her dissertation focused on linguistic anthropology in Lebanon (2008). She has worked as a research consultant for the Cairo-based International Development Research Centre (2009-2010), focusing on social protection systems for vulnerable categories in Egypt, Lebanon, Yemen, Morocco, and Algeria. She has also worked for UNDP-Egypt in the Arab Trade and Development Program (2008).

Bibliography

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Robert D. Putnam, Robert Leonardi, and Raffaella Y. Nanetti, Making Democracy Work: Civic Traditions in Modern Italy, Princeton, NJ, Princeton University Press, 1994.

  • 1.Mona Harb, « La Dahiye de Beyrouth: parcours d’une stigmatisation urbaine, consolidation d’un territoire politique », in Jean-Charles Depaule (ed.), Les mots de la stigmatisation urbaine, Paris, UNESCO éditions, 2006, pp. 199.
  • 2.I opted for the term “vulnerability” rather than “urban poverty” to highlight the role that risk and uncertainty play in the residents’ lives. Indeed, they represent the vulnerable as defined by Dercon, that is the exposure to the risk of becoming poorer or remaining in poverty with no possibility of betterment due to longstanding neglect. Stefan Dercon,Vulnerability: a Micro-Perspective, QEH Working Paper Series No. 149, 2006.
  • 3.Ruth Benedict, Patterns of Culture,Paperback, 1934.
  • 4.Oscar Lewis, Five Families: Mexican Case Studies in the Culture of Poverty, New York, Basic Books, Inc., 1959, p. 3.
  • 5.In this regard, I am highly indebted to J. from the Beit Atfal as-Sumoud, who indirectly became the gatekeeper to Hay al-Gharbe and my research experience there, and took me to Palestinian families living in the slum.
  • 6.Rupen Das and Julie Davidson, “Profiles of Poverty: The Human Face of Poverty in Lebanon”, Mansourieh, Lebanon, ed. Niamh Fleming-Farrell, 2011.
  • 7.Mona Harb, “La Dahiye de Beyrouth: parcours d’une stigmatisation urbaine, consolidation d’un territoire politique”, in Jean-Charles Depaule (ed.), Les mots de la stigmatisation urbaine, Paris, UNESCO éditions, 2006, pp. 199-224.
  • 8.‘Abd-el-Rahim, Hay al-Gharbe, October 19, 2012.
  • 9.Rupen Das and Julie Davidson, “Profiles of Poverty: The Human Face of Poverty in Lebanon”, Mansourieh, Lebanon, ed. Niamh Fleming-Farrell, 2011.
  • 10.Samir Khalaf, Heart of Beirut: reclaiming the Bourj, London, Saqi Books, 2006.
  • 11.Home visit in Hay al-Gharbe, January 29, 2013.
  • 12.Hay al-Gharbe, February 11, 2013.
  • 13.For Palestinians with no documents and not registered with UNRWA, like Najwan’s parents and siblings during the civil war years, access to services financed by the Palestinian Liberation Organization (PLO) has always been problematic. The PLO was forced out of Lebanon in 1982, and Palestinians in Lebanon are still not allowed to create associations (Ministerial Decree No. 17561 of 10th July 1962); the organizations that operate for them must include Lebanese staff and be registered in the country. Therefore, after the PLO’s withdrawal, the services for Palestinians were not replaced by anyone, apart from the Palestinian Red Crescent Society and UNRWA, which used to mediate with Shatila camp’s Popular Committee.
  • 14.Hay al-Gharbe, January 21, 2013.
  • 15.It was created in 1976 to shelter orphaned children victims of the bombing of the Tel az-Za‘tar camp by former Syrian President Hafez al-Asad.
  • 16.February 15, 2013.
  • 17.Hay al-Gharbe, February 13, 2013.
  • 18.Karam Karam, Le Mouvement Civil au Liban. Revendications, Protestations et Mobilisations Associatives dans l’Après-Guerre (1st ed.), Paris, ed. Karthala-Iremam, 2006.
  • 19.Rupen Das and Julie Davidson, Profiles of Poverty. The Human Face of Poverty in Lebanon,Mansourieh, Lebanon, ed. Niamh Fleming-Farrell, 2011.
  • 20.In this regard, it is interesting to note that a larger number of NGOs and UN agencies have started providing a few services in the slum since the arrival of Syrian refugees, in particular starting 2012. Likewise, everyday crimes has received slightly more attention in light of the arrival of Syrian refugees, often depicted in the media as source of domestic insecurity.  For instance, some male residents of Hay al-Gharbe joined anti-Syrian militias in opposition to Dahiye’s general political empathy with the Syrian regime.
  • 21.Few NGOs still operate in Hay al-Gharbe. The one that has been providing health, social, and education services in the neighbourhood the longest is Tahaddi, collaborating with Terres des Hommes. Tahaddi, however, mostly targets refugees and Dom community members.
  • 22.Jennifer Price Wolf, “Sociological Theories of Poverty in Urban America”, Journal of Human Behavior in the Social Environment, Vol. 16, No. 1-2, 2007, p. 53.
  • 23.Mona Harb, « La Dahiye de Beyrouth: parcours d’une stigmatisation urbaine, consolidation d’un territoire politique », in Jean-Charles Depaule (ed.), Les mots de la stigmatisation urbaine, Paris, UNESCO éditions, 2006, pp. 199-224.
  • 24.Lara Deeb and  Mona Harb, “Piety and Leisure: Youth Negotiations of Moral Authority and new Leisure Sites in al-Dahiya”, Bahithat: Cultural Practices of Arab Youth, No. 14, 2010, pp. 414-427.
  • 25.James Holston, Insurgent Citizenship: Disjunctions of Democracy and Modernity in Brazil, Princeton, NJ, Princeton University Press, 2009.
  • 26.Haret Hreik, January 27, 2012.
  • 27.Bi’r al-‘Abed, January 23, 2012.
  • 28.Al-Ghobeiry, October 13, 2011.
  • 29.Haret Hreik, October 15, 2011.
  • 30.Al-Mreije, Beirut, October 31, 2012.
  • 31.Robert D. Putnam, Robert Leonardi, and Raffaella Y. Nanetti, Making Democracy Work: Civic Traditions in Modern Italy, Princeton, NJ, Princeton University Press, 1994.
  • 32.Mona Harb, “La Dahiye de Beyrouth: parcours d’une stigmatisation urbaine, consolidation d’un territoire politique”, in Jean-Charles Depaule (ed.), Les mots de la stigmatisation urbaine, Paris, UNESCO éditions, 2006, pp. 199-224.
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L’ignorata diversità sociale nei sobborghi meridionali di Beirut: dalla guerra di luglio 2006 a oggi (by Estella Carpi, March 2015)

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(View from Choueifat. Beirut’s southern suburbs. Photo taken by Estella Carpi, September 2012)

(Link all’articolo accademico: http://www.francoangeli.it/riviste/Scheda_Rivista.aspx?IDArticolo=53095&Tipo=Articolo+PDF&idRivista=58)

Dopo una rassegna della storia locale dei sobborghi a sud di Beirut (Dahiye), trascurati a lungo dallo stato centrale, questo studio vuole fornire approfondimenti sull’amministrazione locale del partito politico Hezbollah, che si dice abbia migliorato la vita in tale area in modo omogeneo, soprattutto dopo la guerra del 2006. Questo studio si basa su interviste e la tecnica etnografica dell’osservazione partecipante che l’autrice ha condotto da settembre 2011 a febbraio 2013 con le municipalità di Dahiye e i residenti locali. L’attenta amministrazione di Dahiye e il carattere selettivo della sua evoluzione urbana, ha finito per oscurare la crescente diversificazione demografica del territorio e la conseguente disomogenea vulnerabilità dei suoi abitanti. Gli esclusi che abitano Dahiye sono per lo più i rifugiati, immigrati di vecchia data, libanesi che non godono i collegamenti politici o, analogamente, residenti non direttamente colpiti dalla guerra. Inoltre, in questa sede si intende esplorare l’identità collettiva dell’area, ampiamente utilizzata dai governatori locali come strategia politica per mantenere coesione e consenso, ma che, de facto, non riflette la configurazione empirica delle periferie. Al fine di portare in luce l’ignorata diversità della vulnerabilità degli abitanti di Dahiye, l’autore esplora le percezioni dei locali e dei rifugiati stanziatisi in Dahiye che hanno vissuto la guerra di luglio 2006. Il processo arbitrario di omogeneizzazione compiuto dall’esterno tende tuttora a inficiare la conoscenza della diversità di Dahiye, ostacolando, in tal modo, una corretta comprensione di tale realtà sociale e delle sue nuove linee di esclusione.

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