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Redefinindo a vulnerabilidade em uma favela de Beirute: quando a cidadania desempodera (Agosto 2018)

Redefining vulnerability in a Beirut suburb: when citizenship disempowers

Biografia: Estella Carpi è doutora em Antropologia Social e Pesquisadora na University College London. Desde 2010, ela vem realizando pesquisas sobre a resposta social à assistência humanitária fornecida no Líbano desde a guerra de 2006 contra Israel até afluxo de refugiados vindos da Síria. Após estudar Árabe em Milão e Damasco (2002-2008), Carpi recebeu seu mestrado pela Universidade de Milão. Sua tese focou em antropologia linguística no Líbano (2008). Ela trabalhou como consultora de pesquisa para o Centro de Pesquisa de Desenvolvimento Internacional (2009-2010), com sede no Cairo, focando em sistemas de proteção social para categorias vulneráveis no Egito, Líbano, Iêmem, Marrocos e Argélia. Também trabalhou para a o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas no Egito (UNDP-Egypt) no Programa de Comércio e Desenvolvimento Árabe (2008), UN-Habitat no Líbano (2016), Trends Research and Advisory e a New York University em Abu Dhabi (2015 e 2016).

Palavras-chave: pobreza urbana – Líbano – política da identidade

Keywords: urban poverty – Lebanon –identity politics

Resumo

Refugiados no Líbano sempre ocuparam o nível mais baixo da pirâmide social libanesa, na maioria das vezes não têm acesso a serviços públicos e não são nem mesmo legalmente reconhecidos como refugiados. Por sua perspectiva, a cidadania, mesmo produzida dentro de um sistema estatal instável e corrupto, parece ser a única ferramenta para garantir serviços básicos. O presente artigo mostra como em alguns casos como o de Hay al-Gharbe, subúrbio de Beirute—habitado por refugiados, trabalhadores migrantes, e um pequeno número de libaneses desfavorecidos—a cidadania, mais do que a condição de refugiado, é o status legal que impede que os vulneráveis tenham acesso ao regime de assistência no Líbano. Neste âmbito, enquanto a pobreza de refugiados e trabalhadores migrantes se tornou o único fator interpretativo externo para explorar a vulnerabilidade no Líbano, um tipo de pobreza urbana, que não está nem conectada à violência política das guerras regionais nem ao regime falho de refugiados, será investigada por meio de métodos etnográficos.

Abstract

Refugees in Lebanon have always occupied the lowest level of the Lebanese social pyramid, often denied access to public services, and not even being legally recognized as refugees. From the refugee perspective, citizenship, however produced within a wavering and corrupted state system, seems to be the only tool guaranteeing basic services.

The present paper shows how, in particular cases like the Beirut suburb of Hay al-Gharbe—inhabited by refugees, migrant workers, and a small number of disadvantaged Lebanese—citizenship rather than refugeehood is the legal status preventing the vulnerable from accessing any assistance regime in Lebanon. In this framework, while refugee and migrant workers’ poverties have by now become the predominant external interpretative lens to explore vulnerability in Lebanon, a kind of urban poverty, which is neither connected to the political violence of regional wars nor to the flawed refugee regime, will be investigated through ethnographic methods.

Introdução

Os subúrbios do sul de Beirute, considerados par excellence a “periferia” do Líbano, ganharam o nome de “Dahiye” em 1982 após serem chamados de “cinturão da miséria”—hizam al bu’s— ao lado do sul de Metn. A região de Dahiye está localizada entre a área agroindustrial do distrito de Choueifat e o município de Hadath (Harb, 2006). Atualmente, os subúrbios ao sul da capital libanesa são, em sua maioria, administrados pelo principal partido xiita Hezbollah, que prevaleceu sob o partido xiita Harakat Amal na década de 1990.

A homogeneização de um Dahiye desolado e miserável tem muitas vezes ofuscado as diferentes causas da pobreza crônica local e das emergentes formas de exclusão, não somente desencadeadas por fluxos migratórios, crises de refugiados, ou estruturas econômicas abstradas, mas por questões políticas que ainda hoje são ignoradas tanto no nível nacional quanto no internacional. A reconstrução do Dahiye de Beirute em 2006 foi monopolizada pelo projeto Waad, desenvolvido pela ONG Jihad al-Binaa, financiada pelo Irã, e o mais bem sucedido projeto de reconstrução das áreas diretamente afetadas pela guerra de julho de 2006, que são indistintamente vistas como marcadas politicamente pelo governança do Hezbollah. Os esforços para a reconstrução não consideraram as áreas do Dahiye que sofrem de vulnerabilidade perene (Dercon, 2006) e que no geral constituem espaços politicamente “anônimos” ou não afiliados.

Estes bairros do Dahiye, como o assentamento ilegal Hay al-Gharbe — objeto de análise da minha pesquisa de campo entre 2011 e 2013 — na verdade não foi alvo de ataques militares e, portanto, nunca foi declarado em “estado de emergência”.

Eu irei, portanto, ilustrar como o meio social do Hay al-Gharbe é discutido por seus habitantes, que são afetados pela vulnerabilidade não relacionada à guerra. Este artigo também mostra como a falta de bem-estar local afeta indivíduos em áreas negligenciadas tanto por agentes estatais quanto não estatais quando a política de emergência governa os espaços sociais. Neste contexto, o comportamento humano não está moldado pelo caráter estrutural da pobreza urbana, mas pelas percepções culturais do sujeito (Benedict, 1934), que também implica em diferentes imaginários e equemas sociais de pobreza dentro do cenário libanês (Lewis, 1959: 3). A gama de normas e valores que fundamentam tais esquemas emergem da adaptabilidade humana à experiência da pobreza. O estudo de Hay al-Gharbe contrasta com a única possibilidade de prática da cidadania na área de Dahiye, que consiste em afiliação política, conformidade local e não contestação das éticas sociais dominantes.

Este artigo, portanto, aponta para as formas em que a cidadania é mediada por experiências vivas e por direitos formais, a fim de ilustrar as formas articuladas e complexas de pertencer a políticas ignoradas (Isin, 2008).

Métodos de Pesquisa

No âmbito da minha pesquisa de doutorado, realizei aproximadamente 90 entrevistas em profundidade entre setembro de 2011 e novembro de 2013 com moradores do Dahiye, beneficiários ou não da ajuda humanitária fornecida  durante e após a guerra entre Líbano e Israel em julho de 2006 — harb tammuz —, que causou um nível sem precedentes de destruição na infraestrutura do Líbano. Também conduzi 68 entrevistas semi-estruturada em diferentes subúrbios de Beirute com organizações não governamentais locais e internacionais, agências da ONU, e municípios locais que forneceram ajuda humanitária aos desabrigados em 2006.

Andei informalmente pela área de Hay al-Gharbe por vários meses após iniciar minha pesquisa de campo de doutorado. Apesar de fazer parte da área do Dahiye, a maioria de meus amigos libaneses e interlocutores nunca tinham ouvido falar desta favela localizada a oeste de Shatila. Desde então, Hay al-Gharbe tornou-se o papel decisivo de minha pesquisa sobre programas humanitários nas áreas de guerra da Grande Beirute.

Em relação à interpretação de dados e análise dos resultados, privilegiei uma abordagem etnográfica qualitativa a fim de sentir as respostas fornecidas por meus interlocutores ao invés de somente coletar e divulgar suas palavras. Portanto, a observação participativa cotidiana — uma ferramenta clássica de pesquisa em antropologia — permitiu uma compreensão mais aprofundada das situações diárias mencionadas no presente artigo e é aqui considerada como principal fonte epistemológica.

Como ficará evidente, uma análise qualitativa mais ampla de como espaços sociais se transformam em cenários humanitários permitiu que eu explorasse as zonas cinzentas da vulnerabilidade, encontradas entre a condição de refugiado e a cidadania, e portando revelasse as desigualdades pouco estudadas do Dahiye.

Hay al-Gharbe: Não Afiliação Política e Marginalização Crônica

Hay al-Gharbe é um assentamento ilegal que fica na fronteira entre o campo palestino de Shatila e o antigo campo de Sabra — agora simplesmente chamado de tajammu‘, “assentamento” — sob o município de al-Ghobeiry, cuja administração pertence ao principal partido xiita libanês Hezbollah. Sabra e Shatila ficaram famosos por causa dos massacres praticados pela aliança Falangista-Israelense em setembro de 1982 durante a Guerra Civil Libanesa (1975-1990).

As fronteiras deste assentamento não são meramente físicas; elas estão conectadas às identidades comunitárias. Na realidade, sua configuração mudou durante a Guerra Civil Libanesa por conta da migração dos habitantes ao atual estádio, Camille Chamoun (al-medina ar-riadiyya), como resultado dos frenquentes bombardeios aos campos palestinos na época e à briga entre diferentes facções políticas.

Para reformar o estádio em 1992, os ocupantes, antigos habitantes de Hay al-Gharbe, foram despejados e retornaram ao assentamento. O assentamento sempre se diferenciou do campo de Shatila por sua composição urbana variada. Além disso, os próprios moradores muitas vezes expressavam rejeição ao serem associados ao campo de refugiados palestinos, pois este último era frequentemente alvo de ataques de diversas forças políticas e, portanto, atraía a atenção da política internacional.

Em particular, os residentes libaneses que temiam um conflito de longa duração em 2006 ou um aumento da violência nos confrontos Xiita-Sunita em 2008 se mudaram da área, mas retornaram mais tarde, incapazes de se estabelecerem em outros lugares da capital libanesa (Das e Davidson, 2011).

A maioria dos moradores de Hay al-Gharbe são Dom (72%), descendentes de nômades que povoaram as terras da Índia entre os séculos três e dez e que agora habitam o Oriente Médio. O assentamento também é habitado por palestinos que não encontraram acomodação nos campos de refugiados; refugiados regionais e trabalhadores que migraram da Asia e África (especialmente iraquianos, cingaleses e sírios) também representam um número considerável dos residentes de Hay al-Gharbe e formam uma esfera marginalizada dentro da realidade multifacetada do Dahiye. Logo, cidadãos libaneses representam apenas uma pequena porção da população suburbana.

Deve ser levado em consideração que a região do Dahiye, onde Hay al-Gharbe está localizado, pode acomodar até 80 mil pessoas. No entanto, em 1995 já abrigava 500 mil residentes (Harb, 2006).  Os grupos sociais que moram em Hay al-Gharbe — 10 mil pessoas no total — tendem a se isolar e evitar interação uns com os outros e com os demais residentes do Dahiye.[1] Além disso, a maioria dos habitantes são mulheres e crianças, uma vez que cerca de 20% dos homens estão presos. O aumento nas taxas de criminalidade pode ser atribuido à pobreza prolongada e ao aumento da violência urbana (Das e Davidson, 2011).

Por conta de procedências nacionais e hábitos culturais diferentes e ao vertiginoso ritmo de urbanização, a demografia citada nunca foi assimilada à malha urbana do Dahiye, impedindo a formação de uma comunidade urbana totalmente integrada. A falta de integração como resultado de um aumento da urbanização é um fenômeno sociológico generalizável no Líbano (Khalaf, 2006).

Em geral, o rápido processo de urbanização pelo qual imigrantes rurais passaram abriu caminho para a formação de assentamentos ilegais, cujo desmantelamento permanece sendo difícil em um país onde as instituições são muito relaxadas e corruptas para impor regras.  O governo libanês, pelo seu lado, não tem interesse em investir no desenvolvimento de infraestrutura de áreas que proliferaram ilegalmente.

Como prova de tal sentimento de isolamento social, Fatma,[2] 14 anos, me mostrou seus sapatos desemparelhados e disse:

“Eu nunca saio de casa, acho humilhante… olhe para meus sapatos, eles são diferentes um do outro e não tenho dinheiro para comprar outros. Não tenho amigos; se você sai com eles, a conversa é sobre o que eles tem. E não tenho nada para contar… Tudo bem, eu me acostumei com isso. Se eu não tivesse me acostumado, eu iria sofrer.”[3]

Najwan é uma mulher palestina que possui cidadania libanesa por conta de seu casamento com um libanês.[4] Ela me contou que sempre morou em Hay al-Gharbe porque sua família não tinha nenhum contato político e, portanto, não teve a oportunidade de estudar ou encontrar um emprego.[5]

“Eu gostaria de colocar minhas crianças na escolha, mas é um maldito círculo vicioso: com que dinheiro ou poderia fazer isso? Elas morrerão da mesma forma que eu: sem ninguém para tomar conta delas.”

Vale ressaltar que a única ajuda acessível à família da Najwan é aquela a que palestinos têm direito. Isso permitiu que Mohammed, um dos meus interlocutores libaneses, se identificasse com os palestinos refugiados, uma vez que sentiu-se traído pelos libaneses após ser demitido do mercado de vegetais de Sabra onde costumava trabalhar há seis meses:

“Os sírios roubaram meu emprego e meu chefe libanês simplesmente quis contratar alguém mais explorável do que eu. Eu transferi minha cidadania libanesa para toda minha família, mas isso não mudou muito para nós. Nós não “recebemos” nenhum míssil israelense em casa. E com a administração do Hezbollah é assim que funciona: se não houver nenhum dano físico causado por Israel, você não receberá ajuda. Você precisa saber que novas famílias que possuem cidadania em Hay al-Gharbe prometeram lealdade à partidos políticos locais, votando neles nas eleições. Os candidatos prometem fornecer geradores mais acessíveis, administrar melhor os lixões e dar água de qualidade. O que nós faríamos por água de qualidade! Para não pagar para beber água, alguns residentes literalmente se escravizam aos partidos… Você viu o hijab da minha filha? Ela não o usa porque realmente quer ou porque queremos isso… ela o usa porque começou a perder cabelo devido a água salgada do chuveiro!”

Najwan e sua família — meio palestina, meio libanesa — não incorporou a precariedade resultante das emergências de guerra, mas sim a vulnerabilidade decorrente da assistência humanitária de longo prazo dada a palestinos. Ao mesmo tempo, a família de Najwan está associada à pobreza crônica causada e agravada pelos deslocamentos esporádicos durante a guerra civil e por políticas de governo (e de ONGs) discriminatórias.

Wafiq,[6] um libanês de 40 anos que mora em Hay al-Gharbe, disse ser grato por ter tido uma mãe palestina, já que isso assegurrou a sua família acesso às remessas enviadas às comunidades migrantes palestinas:

“Graças ao Beit Atfal as-Sumud (‘Casa [Palestina] de Apoio à Criança’), nós recebemos sustento, o que, no entanto, é suficiente apenas para sobreviver. O povo libanês, como meu pai, nunca teve wasta (contatos pessoais válidos) então nunca tivemos acesso aos serviços públicos, que são muito caros para nós…Você acredita em mim? Para que serve então a nacionalidade libanesa! Aqui não temos água para beber, nem eletricidade; existe apenas uma escola e um posto de saúde no distrito graças à algumas associações. No entanto, o exército nacional não nos protege, nem a polícia e nem o Estado… ninguém liga.”

Da mesma forma, Fathi,[7] um libanês de idade mais avançada que costumava levar uma vida reclusa em Hay al-Gharbe por causa de sua pobreza extrema afirma:

“Eu lutei ao lado do Fatah ad-Dahiye na “guerra dos campos” em 1987. Naquela época, eles faziam muitas promessas: ‘Se você lutar, receberá tudo o que você e sua família precisar’. Não vi nenhuma melhora, nenhuma ajuda. Estou cansado de ver mentiras, assim como revoluções e resistências. Minha vida é tão ruim hoje como nos anos da Guerra Civil.”

Amira,[8] uma adolescente de 13 anos disse que após 2008 ela voltou a viver em Hay al-Gharbe com seus pais, mas

“Nada pertence a nós aqui. A terra pertence ao município e eles podem expulsar-nos daqui quando quiserem. Por isso vivemos trancados em casa. A não ser que mostremos a cara, a maioria de nós permanece invisível e esquecido. E quanto mais esquecidos somos, melhor. Não há segurança. Já esqueci o que há lá fora e eu resisto graças a isso.”

A invisibilidade do Hay al-Gharbe, mesmo dentro dos limites do Dahiye, é devido à negligência de longa data do Estado e da falta de interesse das organizações humanitárias internacionais, que tendem a intervir em áreas que estão menos envolvidas na política global.

De fato, estruturas não governamentais — que desempenharam um papel intervencionista importante no Dahiye durante a guerra de julho de 2006 — negligenciaram áreas de vulnerabilidade severa crônica e pobreza urbana, mas não derivadas da guerra e da violência (Karam, 2006).

Após a vitória pírrica do Hezbollah na guerra de julho de 2006, o partido alcançou o auge de sua popularidade ao distribuir recursos sem discriminação sectária; os distritos mais bombardeados do Dahiye, portanto, atingiram níveis sem precedentes de desenvolvimento econômico e de gentrificação (i.e. Haret Hreik e Bi’r Hassan). Na verdade, a nova classe emergente de engenheiros e arquitetos locais foi em sua maioria empregada no processo de reconstrução.

Contudo, como os relatos da vida cotidiana dos moradores têm mostrado até agora, a recostrução pós-guerra criou novas desigualdades locais. É notável que, pelos olhos dos residentes locais, afiliação política e uma rede de contatos de wasta parecem ser um dos únicos fatores necessários para se beneficiar de qualquer regime de assistência, mesmo para cidadãos libaneses.

Atos de assistência e apoio são designados a servir o cidadão médio do Dahiye, representando o primeiro estágio de um contrato social entre o cidadão e o município e suas organizações locais afiliadas, mais do que entre o cidadão e o Estado central. No entanto, este “contrato social local”, inexistente em um nível nacional, é rejeitado por aqueles cidadãos do Dahiye que permanecem relutantes perante um projeto municipal hegemônico: o único capaz de fornecer um esquema de cidadania tangível nos subúrbios do sul.

Dentro da estrutura de um sistema político sectário e de desigualdades sociais baseadas em etnia, a crescente diversidade étnica do Hay al-Gharbe não facilita a afiliação de moradores heterogêneos de facções políticas específicas, o que seria capaz de, por sua vez, chamar a atenção internacionalmente e fornecer serviços básicos para o bairro.

Hay al-Gharbe, portanto, se apresenta como o “espectro da política” (Das e Davidson, 2011), denunciando os aspectos negligentes do Estado central assim como do governo engenhoso do Hezbollah no município de al-Ghobeiry. A vida reclusa destas pessoas, cujos rostos vestem o véu da miséria em al-Ghobeiry, permite que o governo local e sua negligência saiam impunes. A guerra de 2006 e a subsequente reconstrução deveria ter re-estratificado a sociedade libanesa, a recente falta de emergências diretas na favela — que normalmente geram uma série de projetos de longa duração e de locais seguros — desfavoreceu seus habitantes ainda mais, uma vez que eles não foram afetados diretamente pelos ataques de Israel e não se beneficiaram dos projetos de reconstrução.

O estudo de Hay al-Gharbe revela que a pobreza identificada no Dahiye é moldada por políticas de identidade e não somente por questões sócio-econômicas. O fato de que o humanitarismo internacional tende a não interferir em lugares onde não há interesses políticos é empiricamente confirmado pela existência — e situação crônica — deste assentamento ilegal.

A maioria da indústria humanitária ignorou a favela tanto quanto o Estado libanês. Na verdade, a principal razão para as intervenções de guerra é a declaração oficial de estado de “emergência”, mas deveria ser traçada pelo indicador político a que o território está atribuído. Este é o motivo pela qual a guerra eclode em lugares específicos do Líbano ou de outros países. Neste sentido, tanto agentes estatais quanto não estatais são vistos por terem negligenciado um local que não é considerado “humanizável”, uma vez que fica fora de sua agenda política.

Deve ser notado que o Líbano não é um signatário da Convenção para Refugiados de 1951 e é, portanto, classificado como um país de trânsito. Com relação a isso, refugiados palestinos, iraquianos e sudaneses, mesmo que eles não consigam obter um status legítimo que assegure sua vulnerabilidade como refugiados, ainda são classificados como de fato aptos a receberem ajuda, mesmo que insuficiente e desorganizada.

Em contrapartida, os libaneses desfavorecidos que encontrei em Hay al-Gharbe, e cujas vozes reportei aqui, permanecem fora das políticas de inclusão que o Hezbollah cada vez mais parece promover — especialmente após a guerra de julho — e que continuam sendo ignoradas pelas políticas discriminatórias do Estado. A falta de rótulos étnicos, políticos e confessionais úteis e de wasta com governantes resulta em uma vida negligenciada e reclusa. Neste cenário, a vulnerabilidade é configurada como falta de contatos sociais, influência, recursos e, em especial, contato com capital humano externo (Price Wolf, 2007).

As políticas territoriais do projeto de reconstrução do Dahiye foram bem sucedidas no que diz respeito a compensação da guerra — realizadas dentro de um curto período de tempo, e sem qualquer discriminação sectária, confirmaram a continuidade entre a destruição urbana proveniente da guerra e a reconstrução como uma inversão deste processo em espaços hegemônicos. Contudo, dentro da ampla demografia libanesa sectária e étnica, tal continuidade é interrompida sempre que em um distrito urbano há eventualmente ausência de atenção política devido à sua identidade social menos definida.

Além da abdicação do Estado central de suas responsabilidades, as condições extremas que persistem em Hay al-Gharbe são um xeque-mate do pós-guerra no sobrevalorizado projeto Waad de reconstrução do Dahiye. A redistribuição de recursos do projeto Waad tem sido considerada como igualitária e eficiente, devido à estratégias de compensação destinadas a apagar a sensação de destruição da esfera pública e evitar o ressentimento generalizado contra o Hezbollah em relação a repercussão da guerra de 2006.

Cidadania como Estratégia Discursiva: Hay al-Gharbe no âmbito dos Subúrbios do Sul de Beirute

Ao contrário de Hay al-Gharbe, o Dahiye dominante, normalmente denominado ad-Dahiye al-mazbuta (Harb, 2006), é conhecido por pessoas de fora por conta dos bombardeios israelenses que atingiram a área incontáveis vezes na história do Líbano e também porque é considerado pela mídia internacional como o reduto do Hezbollah.

O setor da periferia destruído pelos aviões israelenses tem sido visto como um local de escolha. Considerando que estes distritos gentrificados são os únicos em que municípios do Dahiye e associações afiliadas ao Hezbollah fornecem serviços básicos e entretenimento (Deeb e Harb, 2010), o desejo das pessoas de se tornarem integrantes do Dahiye passou a ser muito mais forte. Por outro lado, Hay al-Gharbe é um lugar onde as pessoas acabam morando por necessidade, mas também porque são indesejadas e desfavorecidas, o que transforma o local em um dos microcosmos de exclusão do cidadão no Líbano.

Hay al-Gharbe não pode ser considerado um “local de escolha”, uma vez que seus habitantes não têm a oportunidade de desafiar a narrativa predominante da classe e da cidadania, o que contribue para a afirmação de certas hierarquias sociais. Isto acontece devido à impossibilidade de “posicionamento público” (Holston, 2009), ou seja, de reivindicar direitos legais, cívicos e sociais na condição de cidadãos no espaço do Dahiye. Os moradores, por não serem donos da terra, não podem nem mesmo pedir qualquer direito de mobilidade, pois a residência urbana é normalmente a base para a mobilização.

De fato, naquelas áreas onde o espaço público atrai humilhação e o medo de se mudar, uma vida reclusa é preferida e a vulnerabilidade permanece sendo o discurso dominante nos áreas clássicas da condição de refugiado e de migração econômica. Neste cenário, a cidadania pode ser concebida como uma mera observadora e gestora das diferenças no Líbano e é implementada por meio da proteção e prestação de serviço, sempre que as relações de poder subjacentes expressam sua assertividade em favor do beneficiário.

A política de identidade em relação ao acesso aos serviços tem sido abordada apenas parcialmente pelos estudiosos. No caso específico do Líbano, embora haja um vasto leque de literatura sobre políticas e alocação de recursos relacionados às comunidades confessionais (Fawaz, 2005; Jawad, 2007; Harb, 2010), a politização do bem-estar (Ben-Nefissa et al., 2005; Cammett, 2014) e o papel da religião nas associações de bem-estar durante e após a guerra civil do Líbano, as áreas cinzentas entre o bem-estar diário e os estados de emergência não foram pesquisados.

Como prova da diminuição da assistência dada aos cidadãos não afiliados politicamente, mesmo dentro do “Dahiye hegemônico”, segue o relato de ‘Abbas, um libanês desempregado já nos seus 50 anos que ficou desabrigado em 2006. Enquanto jantávamos em sua casa em Haret Hreik ele disse:

“As folhas de vinho que você está comendo são do nosso quintal no Sul. Depois da guerra não consegui encontrar nenhum emprego por aqui… Nossos bolsos estão vazios, porque não conhecemos ninguém na política”.[9]

Igualmente, Farah, um jovem padeiro libanês em Bi’r al-‘Abed, estava reclamando do fato de que antes do harb tammuz o Hezbollah costumava conceder empréstimos para pequenas empresas:

“Agora o custo de vida ficou exorbitante. Eles acham que estamos em Dubai? Após a guerra, devido à falta de petróleo, os motoristas [táxi compartilhado] aumentaram a taxa da corrida de LBP 1,500 para LBP 2,000 [libra libanesa]. Nunca mais voltou ao que era antes. A vida se tornou impossível. Não tenho poder de compra.”[10]

Apesar do sentimento pessoal de posse territorial e de pertencimento, Ahmad, 32 anos, e dono de uma loja em al-Ghobeiry, queixou-se sobre a falta de ideias não dominantes: “Se você não se enquandrar na Resistência, vocês está sozinho, por conta própria. Eles tiram de você o que ganhou nos tempos da guerra”.[11]

Da mesma forma, Salwa, uma jovem de Haret Hreik lamentou o fato dos municípios locais abandonarem pessoas carentes, ao contrário dos anos anteriores à guerra de 2006:

“Se você não tem um mártir ou um ferido entre os membros de sua família por causa de uma das guerras do Hezbollah, você está ferrado. Há vários serviços de caridade para categorias especiais, para mostrar que o partido está engajado e coisas assim…”[12]

Nawal, um cabeleireiro de al-Mreije, um distrito de maioria cristã dentro dos subúrbios do Dahiye conta:

“Não precisa ter medo de mim [risos], eu não tenho nada a ver com esses mestres da guerra que mandam na área […]. Eles conhecem sua família melhor do que você! Eles só dão ajuda aos xiitas agora, não é mais como durante o harb tammuz. O resto que vocês escutam por aí é só propaganda. Se você não está engajado com a política deles você se torna ninguém.”[13]

Para discutir a cidadania em Hay al-Gharbe e o papel que o status legal dos cidadãos tem na negação do acesso aos regimes de bem-estar, vale mencionar a eterna retórica anti-Estado presente nos subúrbios do sul de Beirute: uma retórica que, apesar de inflada pelo Hezbollah para ganhar consenso local, é produzida a partir do abandono da área pelo Estado, e mesmo pela hostilidade do mesmo, largamente percebida na região.

Este projeto hegemônico de cidadania territorial é citado e praticado em oposição ao Estado central, mesmo quando as fronteiras entre o Estado central e o partido fluem bem. A respeito disso, vale ressaltar que a retórica anti-governo adotada pelo partido xiita permaneceu a mesma mesmo quando o Parlamento Libanês foi, sobretudo, liderado pela coalização de 8 de março, a qual faz parte o Hezbollah. Mesmo sob o domínio do antigo Primeiro Ministro Libanês do governo de Najib Miqati, considerado politicamente próximo ao Hezbollah, os habitantes de Dahiye enxergavam o governo central como o inimigo, que não protegia seu povo das invasões e destruições de Israel.

Dito isto, uma posição ideológica reificada contra o Estado central serve melhor o modelo de cidadania que o Hezbollah vem construindo no Dahiye ao longo dos anos no nível municipal, que é considerado participativo, principalmente após o término da ocupação israelense no Líbano (2000).  Neste contexto, a noção de cidadania deve ser entendida como um contrato social entre cidadãos locais e municípios do Dahiye, sem considerar uma implicação nacional mais ampla.

Do ponto de vista destas considerações, a linguagem da cidadania ortodoxa sofre para descrever o cenário libanês em termos de direitos e responsabilidades, o que deveria estar fora dos padrões clássicos que constituem o Estado Nacional. Contudo, uma noção pragmática de cidadania ainda pode ser uma ferramenta epistêmica fundamental para identificar novas linhas de inclusão e exclusão.

No Dahiye, o senso cívico, como apresentado pelo sociólogo Robert Putnam (1994), i.e. a aceitação dos direitos e obrigações que qualquer cidadania implica ainda é vista como sectária tanto pelos locais como por estrangeiros, principalmente moradores que não se identificam com o projeto de cidadania hegemônica territorial implementada pelo principal governante local, o Hezbollah.

Alguns dos testemunhos que coletei no Dahiye pareciam ser uma tentativa de desafiar uma cidadania hierárquica que corre ao lado da afiliação política, mas que ainda lutam para se materializar em ações políticas que, por sua vez, levariam a um governo idealmente assertivo e que funcione bem para assim expandir sua esfera de justiça social. Isto é devido ao fato de que a melhoria sócio-econômica de uma parte do Dahiye é relativamente recente e decorrente da instabilidade destes subúrbios e sua permanente exposição aos conflitos locais e regionais.

Como ilustrei por meio do ponto de vista das pessoas, bem-estar social é seletivamente implementado e melhorado com base nas relações políticas que cada indivíduo ou família desenvolveu ao se juntar a redes sociais específicas. Neste contexto, gostaria de ressaltar que a ação política ainda é interpretada como uma expressão de identidade, mais do que uma mera estratégia maquiavélica utilizada para ganhar benefícios. Portanto, o estereótipo em torno da qual a ideia do Dahiye foi construída ao longo das décadas — a área perigosa que abriga xiitas miseráveis sempre “prontos para morrer” — leva a uma interpretação de identidade como um incentivo político em vez de um ato performativo resultante de certas condições sociais e econômicas. Como resultado, categorias abstradas do Dahiye como xiitas e “refugiados palestinos” são arbitrariamente usados como identificadores de individualidades políticas puras.

A política — não somente “islâmica” — da Resistência promovida pelo Hezbollah ainda é um modelo predominante de cidadania territorial, funcionando como um fator de coesão da malha social dominante. A questão da Resistência apareceu em minha discussão uma vez que os participantes da pesquisa expressivamente associaram a melhoria econômica e o acesso aos serviços com o cumprimento de jure do cidadão a um ethos oficial traçado pelos governantes do Dahiye na esfera pública. Como em qualquer sistema de valores e crenças, definidos em termos de ética social, alguns moradores locais não se sentem representados e, portanto, motivados a aderirem aos padrões éticos e políticos fornecidos pelo partido. Nestes casos, a cidadania é de facto interrompida. Esta análise sociológica do Dahiye nos ajuda a entender como a cidadania interrompida de Hay al-Gharbe deveria ser detectada em diferentes políticas negligentes de gerenciamento do espaço e de reassentamento. Políticas que mantém o conforto em viver em sociedade e o conforto da mobilidade na área como reféns ao defender o fornecimento escasso de assistência para alguns enquanto ignorando outros, em conformidade com uma ditadura de distribuição de recursos orientada pela identidade — e atenção dos pesquisadores.

Discussão e conclusão

Neste artigo, a noção de cidadania foi utilizada como uma ferramenta discursiva capaz de descobrir as não estudadas desigualdades do Dahiye, que têm muitas vezes se mostrado invisíveis ou homogeneizadas pelos estereótipos criados ao longo da história do chamado “cinturão da miséria” (Harb, 2006).

De um lado, quando adotamos a perspectiva dos moradores locais, a cidadania é representada como um sentimento de pertencimento e na forma de reivindicação territorial. Por outro, também é concebida por dissidentes da hegemonia local como a adoção de valores éticos que são impostos de cima para baixo. Neste sentido, a cidadania de facto — embora aqui citada como meramente municipal — é mantida por pessoas que estão dispostas a obedecer a ética dominante do Dahiye. Tais cidadãos de facto territoriais contribuem para criar, por assim dizer, uma ditadura de indivíduos privilegiados ou simplesmente emancipados entre os diversamente definidos como vulneráveis, e constituindo, portanto, os únicos cidadãos reais dentro de um Estado ainda relaxado.

Minha crítica a homogeneização do Dahiye — o que certamente não é novidade para pesquisadores locais e internacionais — procura trazer ao primeiro plano como a política de identidade informa a política de bem-estar, e o quão grotesca ad hoc é a intervenção humanitária nos distritos do Dahiye atingidos pela guerra, enquanto a vulnerabilidade crônica não relacionada a guerra é negligenciada.

Esses mesmos grupos vulneráveis ​​são aqueles que Chamber (1986) chamaram “os perdedores escondidos”. Estes ciclicamente se encontram em competição com recém-chegados pobres que tendem a se mudar para essas áreas financeiramente mais acessíveis durante deslocamentos e crises de emergência.

De acordo com a lógica do aparato humanitário impulsionada pela emergência, qualquer pesquisador — também me inclua — tende a abordar os subúrbios do sul como se fossem um mero local para escrever sobre guerra e patografias pós-guerra. Logo, neste contexto de assistência humanitária e desenvolvimento de projetos de longa duração que proliferaram no Dahiye após a guerra de julho de 2006, os espaços heterogêneos de exclusão nos subúrbios, excluídos do recente processo de gentrificação urbana e que abrigam cidadãos cuja falta de vulnerabilidade classificável os nega acesso aos serviços, lutam para se destacarem em um habitat social mais amplo.

Provida de uma visão mais ampla do ambiente dos subúrbios, foi possível ilustrar, em relação a vulnerabilidade do cidadão, a marginalização social de grupos de refugiados, como o povo palestino que citei, crônicamente deixado de fora do modelo hegemônico de cidadania municipal estabelecido pelo Hezbollah, e também discriminado por políticas estatais. Da mesma forma, foi possível ver como mesmo a cidadania normativa não fornece aos necessitados recursos básicos, a favela de Hay al-Gharbe é um exemplo. Portanto, cidadãos não afiliados politicamente, morando em lugares que não aparecem nos mapas oficiais porque são menos marcados politicamente e demograficamente híbridos, se encontram nas mesmas condições extremas que os refugiados (permanentes). Em um ambiente em que a vulnerabilidade não é apenas sobre a exposição à guerra, mas também sobre a política representando estas guerras, e se a condição de refugiado e a vulnerabilidade correm em paralelo por definição, ter o status de cidadão ainda pode levar ao desempoderamento.

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[1] ‘Abd-el-Rahim, Hay al-Gharbe, 19 outubro, 2012.

[2] Visita domiciliar em Hay al-Gharbe, 29 janeiro, 2013.

[3] Tradução de árabe para português.

[4] Hay al-Gharbe, 11 fevereiro, 2013.

[5] Decreto Ministerial No. 17561 do 10 Julho 1962.

[6] Hay al-Gharbe, 21 janeiro, 2013.

[7] 15 fevereiro, 2013.

[8] Hay al-Gharbe, 13 fevereiro, 2013.

[9] Haret Hreik, 27 janeiro, 2012.

[10] Bi’r al-‘Abed, 23 janeiro, 2012.

[11] Al-Ghobeiry, 13 outubro, 2011.

[12] Haret Hreik, 15 outubro, 2011.

[13] Al-Mreije, Beirut, 31 outubro, 2012.

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